Estamos no tempo da Quaresma e a nossa peregrinação quaresmal avança tendo como desafio o seguimento de Jesus Cristo, o Filho de Deus. Ele convida-nos a olhar o mundo na ótica da fé, como fez com aquele homem cego que encontrou nos arredores de Jerusalém por ocasião da Festa das Tendas. Convém ressaltar que, verdadeiramente, a Quaresma convida ao seguimento de Jesus, jamais à imitação. No seguimento de Jesus, o cristão faz-se sujeito da sua opção. É algo totalmente seu. Se busca a imitação, perde o protagonismo do seu processo de discipulado e amadurecimento da fé e corre o risco de uma grande frustração, porque não terá e não viverá as mesmas condições do Filho de Deus. Jesus abre nossos olhos para segui-lo na fé, todavia, não sugere a imitação porque, somos sujeitos e protagonistas das nossas vidas e decisões, assim como o homem cego, personagem do Evangelho desse domingo, foi convidado a ser.
O Evangelho de João (9,1-41) proposto para o 4º Domingo da Quaresma provoca-nos a esta reflexão. Jesus age de uma forma pedagógica, a fim de ajudar seu interlocutor a se encontrar com a fé e viver o discipulado, sendo sujeito de duas decisões importantes na sua vida. A cura da cegueira desencadeia estas duas decisões.
O texto começa com uma pergunta dos discípulos a Jesus ao verem um homem cego. A pergunta revela a mentalidade do grupo, não diferente da compreensão religiosa da época. Para eles, aquele homem era cego por causa do pecado dele ou dos pais, e manifestam esta visão ao interpelarem Jesus. Os discípulos de Jesus não conseguiam ir além do pensamento religioso da época. A cegueira, a doença, ou o defeito físico eram culpa do pecado. Era castigo divino.
Jesus sugere outra forma de ver a situação. Aquele homem cego poderia ser uma oportunidade (sinal) da glória de Deus a se manifestar nele. Esta glória se manifestaria através da Sua pessoa, aquele que era Luz do mundo, a mesma Luz expressa por João Batista (Jo 1, 7) ou no prólogo do Evangelho de João (Jo 1,5). A Luz dissipa as trevas, inclusive do preconceito, inclusive do preconceito social e religioso que condena as pessoas à exclusão social e, consequentemente, viverem de esmolas, da benevolência alheia (Jo, 9,8).
Agindo como Luz, ele atua para curar o homem (Jo 9,6) e provocá-lo a um passo significativo na sua vida, o caminho da fé. João apresenta o fenômeno em dois momentos intercalados. Ao curar o cego dá um recado à sociedade que o condenara à marginalidade e provoca o homem a um processo de amadurecimento no mistério de Deus, não aquele da instituição social que marginalizara, mas o que Jesus lhe apresentou. A cura segue um rito em que Jesus usa os elementos da natureza (terra e água), seu poder curativo, a religiosidade popular (piscina de Silóe) e o protagonismo do cego (que foi lavar-se e voltou enxergando).
O fato gerou estranheza nos vizinhos, pois estavam acostumados com a cegueira e mendicância do outro. Se os vizinhos acharam estranho ver o cego enxergando fisicamente, um outro grupo, os fariseus, ficou furioso, porque a cura acontecera em dia de sábado. Veja-se que não se alegraram pela renovação da vida do homem que agora enxergava, mas ficaram preocupados com uma lei humana supostamente infringida, a cura feita em dia de sábado. Disseram que aquilo não era de Deus.
O cego, por sua vez, agora curado fisicamente, não mais dependendo dos outros e também não mais taxado de pecador, vai dar outro passo em sua vida. Enfrentou um interrogatório duro dos fariseus e justificou concretamente a sua cura afirmando que Jesus não era um pecador. Sim, aquilo era coisa de Deus. “…ele abriu-me os olhos! Sabemos que Deus não escuta os pecadores, mas escuta aquele que é piedoso e faz sua vontade. Jamais se ouviu falar que alguém tenha aberto os olhos a um cego de nascença. Se este homem não viesse de Deus não poderia fazer nada” (Jo 9,31-33). Assim, o homem, outrora cego, desconstrói a teologia do pecado dos fariseus, além de solapar o seu papel de porta-voz dos desígnios de Deus. E estes, perdendo o argumento, o expulsam da comunidade.
O homem que era cego ganhou a visão, mas ficou sozinho, pois até mesmos seus pais não conseguiram defendê-lo (Jo 9 20-22). Era a consequência do discipulado. Os olhos da fé estavam se abrindo. Deu-se conta de uma experiência social e religiosa que o condenara à marginalidade e que precisava superar. Esta experiência não era interessante para ele, pois mostrou toda a sua ineficácia.
Jesus, depois de deixar o tempo do discernimento, se apresentou novamente ao homem que era cego. Era necessário dar outro passo, já que a cegueira física e a situação de marginalidade estavam superadas. Ele deveria ver Jesus com o olhar da fé. Quando manifesta o ato de crer se prostra diante de Jesus (Jo 9,38) ele manifesta a disponibilidade para o outro passo, o discipulado.
Pe. Ari Antonio dos Reis