No 4º domingo da páscoa a liturgia da Palavra apresenta o Evangelho de João, no qual Jesus se apresenta como Bom Pastor, como a Porta das Ovelhas e como aquele que dá a vida para que todos tenham vida. É o domingo do Bom Pastor.
É importante ressaltar que toda a dimensão evangelizadora da Igreja deriva justamente Dele, do Cristo, Bom Pastor. Tudo o que é realizado na perspectiva pastoral da Igreja tem sua gênese no ministério pastoral de Jesus, uma continuação do seu pastoreio. Como Ele diz no domingo da Páscoa: “recebei o Espirito Santo. Como o Pai me enviou eu também vos envio” (Jo 20, 21-23).
A partir deste mandato de Jesus, poderíamos nos perguntar por quais caminhos a Igreja continua a missão pastoral de Cristo no hoje da história? Destacaria aqui três caminhos pastorais: pela formação de pastores a partir de Cristo; pela inserção nos contextos e pela dinâmica evangelizadora.
O primeiro ponto, sobre a formação dos pastores a partir de Cristo é a preparação que todo fiel batizado tem para viver sua vocação no mundo. Um bom líder exercerá sua missão se tiver como modelo Jesus Cristo, o bom pastor. Na mensagem para o dia mundial das vocações, o Papa Leão XIV explicou que: “No Evangelho de João, Jesus define-se literalmente como o “pastor belo” (ὁ ποιμὴν ὁ καλός) (Jo 10, 11). A expressão indica um pastor perfeito, autêntico, exemplar, na medida em que se mostra disposto a dar a vida pelas suas ovelhas, manifestando assim o amor de Deus. É o Pastor que deslumbra: quem olha para Ele descobre que, seguindo-o, a vida é realmente bela” (Mensagem do Papa Leão para o 63º dia mundial de oração pelas vocações). Por isso, a formação cristã precisa, necessariamente, contemplar a bondade e a beleza daquele que é o Bom Pastor: Jesus Cristo. Esta formação se fundamenta no anúncio de sua pessoa e na transformação de todos a partir Dele. Mais do que transmitir conteúdos religiosos, a formação dos bons pastores para o mundo de hoje passa pelo caráter performativo da fé.
O segundo ponto destacado é a inserção nos contextos. Não há bom pastor desconectado da realidade. O próprio Jesus conheceu profundamente o seu contexto, observou as pessoas antes de chama-las para fazer parte do seu grupo (Mc 1). Andou por toda parte, entrou em contato com as pessoas e foi participando das alegrias e sofrimentos dos pobres, das mulheres, dos grupos marginalizados, daqueles que deveriam mudar de vida e converter-se ao projeto do Reino de Deus. Nos nossos tempos, temos a orientação pastoral da constituição Gaudium et Spes, do Concílio Vaticano II, a qual diz: “As alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos aqueles que sofrem, são também as alegrias e as esperanças, as tristezas e as angústias dos discípulos de Cristo; e não há realidade alguma verdadeiramente humana que não encontre eco no seu coração. Porque a sua comunidade é formada por homens, que, reunidos em Cristo, são guiados pelo Espírito Santo na sua peregrinação em demanda do reino do Pai, e receberam a mensagem da salvação para a comunicar a todos. Por este motivo, a Igreja sente-se real e intimamente ligada ao gênero humano e à sua história” (GS 1). Por esta concepção, a Igreja entende que os seus fiéis estão inseridos na história humana e são marcados profundamente por ela, por tudo o que acontece de bom e de desafios. Formar pessoas para continuar a missão de Cristo é fomentar nelas aquele tríplice lugar: que estejam a frente para ajudar a conduzir, no meio para participar de suas vidas, e atrás para empurrar se for necessário, a fim de que todos tenham plena participação no mistério da salvação.
E, o terceiro aspecto diz respeito a dinâmica evangelizadora. Os bons pastores que continuam hoje a missão de Jesus Cristo, Bom Pastor, estão envolvidos por uma realidade dinâmica. Estar atento a isso é fazer o caminho espiritual da “saída”. O papa Francisco falou tanto da Igreja em saída, e existem várias interpretações para este pedido do saudoso papa. Mas gostaria de ressaltar que os bons pastores de hoje, a exemplo de Jesus o Bom Pastor, precisam sair de si como grande movimento evangelizador. Em uma conexão conjuntural cada vez mais elaborada na figura da pessoa, os bons pastores precisam sair de si, de seu lugar, de suas convicções, de seus pré-conceitos, de suas vontades e de tantas outras saídas, a fim de assumir um projeto de vida maior, chamado de Reino de Deus. Sem essa saída de si, a evangelização fica estática, burocrática, personalizada, assumindo características de pessoas, grupos ou ideias até perversas. A evangelização é dinâmica porque é inserida na história e realizada por pessoas atentas aos sinais dos tempos.
Enfim, já dizia o Pe Elli Benincá em suas aulas de Metodologia e Prática Pastoral que existe um triangulo hermenêutico da evangelização formado pelo agente – comunidade – missão. Ele contempla a pessoa, inserida em uma comunidade histórica, cuja missão é evangelizar. Evangelizar é anunciar a Boa Nova do Evangelho. E esta função é exercida por bons pastores que se inspiram em Jesus Cristo para ser, fazer e viver sua vocação no mundo.
Que o Bom Pastor nos conduza com segurança para termos o pleno êxito da missão deixada por Ele.
Pe Mateus Danieli