A Igreja é formada pelas pessoas que ouviram os ensinamentos de Jesus Cristo e se dispuseram a segui-lo. Elas carregam para dentro da Igreja as suas fragilidades e dúvidas, pois são seres humanos necessitados de cuidado, orientação e correção. A Palavra de Deus, neste domingo, apresenta medos, dúvidas e problemas das primeiras comunidades cristãs, mas, acima de tudo, oferece respostas para toda Igreja. Estas são válidas para todos os tempos (Atos 6,1-7, Salmo 32(33), 1 Pedro 2,4-9 e João 14,1-12).
O evangelista João registra as orientações finais de Jesus antes da morte, ressurreição e volta do Pai. Tinha reunido os apóstolos para celebrar a Última Ceia; nela lavou os pés dos discípulos e deu-lhes como estatuto perpétuo o mandamento do amor. Até este momento, Jesus é o centro visível com usas palavras e atitudes. Em breve, esta presença visível não existirá mais, mas Ele continuará presente. Por isso, Jesus exorta os discípulos: “Não se perturbe o vosso coração. Tendes fé em Deus, tende fé em mim também”. A partida de Jesus será motivo de desorientação, perturbação e sentimento de orfandade. O que será deles quando o Senhor tiver ido embora? A perturbação é tempo de prova, uma oportunidade de crescimento na fé, mas também um tentação de dispersão e desconfiança. Jesus afirma que não está abandonando os discípulos e lhes recorda que “para onde vou, vós conheceis o caminho”.
Tomé com sua habitual sinceridade e espontaneidade quer um esclarecimento melhor sobre o caminho. Jesus lhe responde: “Eu sou o Caminho, a Verdade e a Vida”. O caminho a seguir não é uma estrada, mas uma pessoa para seguir. Esta pessoa é o próprio Jesus. Ele se define como o caminho e une ao caminho outras duas qualidades pessoais: a verdade e a vida. O caminho é um conceito relativo, isto é, está subordinado para onde conduz. A meta é o encontro com o Pai celeste. A verdade supõe um conteúdo e a ele se refere. O conteúdo da verdade é a vida.
“Jesus é a vida porque é o único que a possui em plenitude e pode comunicá-la. Por ser a vida plena é a verdade total, ou seja, pode-se conhecer e formular como a plena realidade do homem e de Deus. É o único caminho, porque somente sua vida e morte mostram ao homem o itinerário que o leva a realizar-se. Segui-lo, portanto, significa seguir o seu caminho, assimilar-se à sua vida e morte”, explica o exegeta Juan Mateos.
O livro de Atos dos Apóstolos registra um problema surgido na primeira comunidade: “o número dos discípulos tinha aumentado, e os fiéis de origem grega começaram a queixar-se dos fiéis de origem hebraica. Os de origem grega diziam que suas viúvas eram deixadas de lado no atendimento diário”. Temos agora uma comunidade cristã aumentada e formada por diferentes raças, línguas e nacionalidades. O crescimento é motivo de alegria, porém trouxe novos desafios e problemas. Surgiram privilégios e discriminações entre eles. Como atender a todos de modo fraterno e igual? Quem da comunidade vai fazer isto?
Os Doze Apóstolos ouviram a queixa e admitiram a existência do problema. Eles têm ciência que não podem deixar de anunciar a “Palavra de Deus” e dedicar-se “inteiramente à oração”. Mesmo que queiram, eles admitem que não tem condições de atender a todos de forma igualitária. Mas também não se acomodam e nem se conformam com a constatação do problema e refugiar-se na lamentação. Também admitem que não tem respostas claras para o problema.
Então os Doze Apóstolos propõe uma metodologia participativa: “reuniram a multidão dos discípulos e disseram […] Irmãos, é melhor que escolhais entre vós sete homens de boa fama, repletos do Espírito e de sabedoria, e nós os encarregaremos dessa tarefa”. Envolvem os membros na comunidade na busca de respostas. Também os discriminados no atendimento, participam da solução. Os desafios internos da Igreja não são somente responsabilidade do Papa, dos bispos e dos padres. Todos os fiéis leigos são chamados a se envolver na busca de soluções. É responsabilidade da hierarquia proporcionar espaços de participação.
A 1ª Carta de Pedro faz o convite: “aproximai-vos do Senhor, pedra viva, rejeitada pelos homens, mas escolhida e honrosa aos olhos de Deus. Do mesmo modo, também vós, como pedra vivas, formai um edifício espiritual, um sacerdócio santo […] a nação santa, o povo que ele conquistou para proclamar as obras admiráveis daquele que vos chamou das trevas para a sua luz maravilhosa”.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo