Estimados irmãos e irmãs, bom dia e bem-vindos!
Continuando a reflexão sobre a Constituição dogmática Lumen gentium (LG), hoje meditamos sobre o segundo capítulo, dedicado ao Povo de Deus.
Deus, que criou o mundo e a humanidade e deseja salvar todos os homens, realiza a sua obra de salvação na história, escolhendo um povo concreto e habitando nele. Por isso, Ele chama Abraão, prometendo-lhe uma descendência numerosa como as estrelas do céu e a areia do mar (cf. Gn 22, 17-18). Com os filhos de Abraão, depois de os ter libertado da condição de escravidão, Deus faz uma aliança, acompanha-os, cuida deles, reúne-os sempre que se perdem. Portanto, a identidade deste povo é dada pela ação de Deus e pela fé n’Ele. Ele é chamado a tornar-se luz para as demais nações, como farol que atrairá a si todos os povos, a humanidade inteira (cf. Is 2, 1-5).
O Concílio afirma que «todas estas coisas aconteceram como preparação e figura da nova e perfeita Aliança que em Cristo havia de ser estabelecida e da revelação mais completa que seria transmitida pelo próprio Verbo de Deus feito carne» ( LG, 9). Com efeito, é Cristo que, na dádiva do seu Corpo e Sangue, reúne em si mesmo e de modo definitivo este povo. Ele já é composto por pessoas provenientes de todas as nações; está unificado pela fé n’Ele, pela adesão a Ele, pelo viver da sua própria vida, animado pelo Espírito do Ressuscitado. Esta é a Igreja: o povo de Deus que haure a própria existência do corpo de Cristo, [1] e que é ele próprio corpo de Cristo; [2] não um povo como os outros, mas o povo de Deus, convocado por Ele e formado por mulheres e homens provenientes de todos os povos da Terra. O seu princípio unificador não é uma língua, uma cultura, uma etnia, mas a fé em Cristo: a Igreja é, portanto – segundo uma maravilhosa expressão do Concílio – a assembleia de quantos «se voltam com fé para Cristo» ( LG, 9).
Trata-se de um povo messiânico, precisamente porque tem como cabeça Cristo, o Messias. Aqueles que fazem parte dele não se vangloriam de méritos nem de títulos, mas apenas do dom de ser, em Cristo e por meio d’Ele, filhas e filhos de Deus. Portanto, antes de qualquer tarefa ou função, o que realmente importa na Igreja é estar enxertado em Cristo, ser por graça filhos de Deus. Como cristãos, este é também o único título honorífico que deveríamos procurar. Estamos na Igreja para receber incessantemente a vida do Pai e para viver como seus filhos e irmãos entre nós. Consequentemente, a lei que anima as relações na Igreja é o amor, tal como o recebemos e experimentamos em Jesus; e a sua meta é o Reino de Deus, para o qual ela caminha com toda a humanidade.
Unificada em Cristo, Senhor e Salvador de todos os homens e mulheres, a Igreja nunca pode fechar-se em si mesma, mas está aberta a todos e é para todos. Se lhe pertencem os crentes em Cristo, o Concílio recorda-nos que «ao novo Povo de Deus todos os homens são chamados. Por isso este Povo, permanecendo uno e único, deve estender-se a todo o mundo e por todos os séculos, para se cumprir o desígnio da vontade de Deus que, no princípio, criou uma só natureza humana e resolveu unir todos os seus filhos que estavam dispersos» (LG, 13). Portanto, até aqueles que ainda não receberam o Evangelho estão de certa forma orientados para o povo de Deus, e a Igreja, cooperando para a missão de Cristo, é chamada a propagar o Evangelho em toda a parte e a todos (cf. LG, 17), a fim de que todos possam entrar em contacto com Cristo. Isto significa que na Igreja há e deve haver lugar para todos, e que cada cristão é chamado a anunciar o Evangelho e a dar testemunho em todos os ambientes onde vive e trabalha. É assim que este povo mostra a sua catolicidade, acolhendo as riquezas e os recursos das várias culturas e, ao mesmo tempo, oferecendo-lhes a novidade do Evangelho para as purificar e elevar (cf. LG, 13).
Neste sentido a Igreja é una, mas inclui todos. Assim a descreveu um grande teólogo: «Única arca da Salvação, deve acolher na sua vasta nave todas as diversidades humanas. Única sala do Banquete, os víveres que distribui são tirados de toda a criação. Túnica inconsútil de Cristo, ela é também – e é a mesma coisa – a túnica de José, com muitas cores». [3]
É um grande sinal de esperança – sobretudo nos nossos dias, atravessados por tantos conflitos e guerras – saber que a Igreja é um povo no qual convivem, em virtude da fé, mulheres e homens de diferentes nacionalidades, línguas ou culturas: é um sinal inserido no próprio coração da humanidade, apelo e profecia daquela unidade e paz a que Deus Pai chama todos os seus filhos.
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[1] Cf. J. Ratzinger, Il nuovo popolo di Dio, Brescia 1992, 97.
[2] Cf. Y.M.-J. Congar, Un popolo messianico, Brescia 1976, 75.
[3] Cf. H. de Lubac, Cattolicismo. Aspetti sociali del dogma, Milano 1992, 222
https://www.vaticannews.va/pt/papa/news/2026-03/papa-catequese-audiencia-geral-lumen-gentium-igreja-lugar-todos.html