A Quaresma progressivamente vai revelando quem é Jesus, naquele que depositamos a fé e concede vida plena. A liturgia dominical traz o encontro de Jesus com a Samaritana, junto ao poço de Jacó. É um encontro extraordinário: Jesus vai se dando a conhecer e a Samaritana vai se abrindo; do pedido da água do poço vai-se ao desejo interior de saciar a sede; os desejos mais profundos são revelados; o diálogo é respeitoso e progressivo; Jesus “tinha sede da fé daquela mulher” – segundo Santo Agostinho – e ela tinha sede de “água viva”. (Êxodo 17,3-7, Salmo 94, Romanos 5,1-2.5-8, João 4,5-42).
Quando falamos de água percebemos duas realidades naturais inerentes a ela: como fonte de vida e de morte. Ela está onipresente em todo planeta terra e de muitas maneiras. É líquida, gasosa, congelada. Corre nos rios, está em lagos, no subsolo, nos mares. Seu volume é imenso e tem várias finalidades: faz viver, dissolve, apaga o fogo e faz morrer.
Sendo a água um elemento primordial para a vida dos seres vivos, é fácil compreender a função simbólica que ela vai adquirindo. Mesmo no universo simbólico ela será símbolo na dimensão religiosa, antropológica e psicológica. Toda Escritura está repleta de textos que falam da água natural e ou de seu sentido simbólico.
Concentremos a atenção no Novo Testamento. Tertuliano escreveu entre os anos 200-205 um ensinamento sistemático sobre o Sacramento do Batismo onde apresenta a relação de Jesus com a água. “Cristo nunca aparece sem a água. Ele mesmo é batizado na água; convidado às núpcias, é a água que inaugura o começo de seu poder; quando prega, convida os sedentes para beber sua água eterna; quando instrui sobre a caridade, reconhece como obra de amor o copo de água dado ao próximo; descansa junto a um poço; caminha sobre as águas; gosta de navegar sobre a água; lava os pés de seus discípulos com água. Os testemunhos a favor do batismo prolongam-se até a paixão; quando é condenado à cruz, a água exerce seu papel pelas mãos de Pilatos; quando é traspassado, irrompe água de seu lado, pela lança do soldado”.
Esta relação de Cristo com a água, nos abre um horizonte amplo para compreendermos e nos envolvermos no diálogo de Jesus com a samaritana. Na evolução das perguntas e respostas vai aflorando na samaritana outra sede que estava abafada. Uma sede escondida pelas atividades e preocupações diárias. Jesus lembra que saciar esta sede é tão necessário quanto saciar a sede da água do poço. Uma sede de infinito que só pode ser saciada com a água que Jesus oferece, a água viva do Espírito. O prefácio da liturgia hodierna reza: “Ao pedir à Samaritana que lhe desse de beber, Jesus suscitava nela o dom da fé; e tão grande era sua sede pela fé dessa mulher, que acendeu nela o fogo do vosso amor”.
No diálogo entre Jesus e a Samaritana está traçado o percurso espiritual para cada cristão e cada comunidade. Particularmente, é tempo para recordar a graça do Sacramento do Batismo quando o batizado foi banhado na água viva. A água batismal tem a função simbólica de imersão na morte de Cristo, isto é “morrer com Cristo” (Rm6,8); é libertação do pecado; é momento de purificação moral; é incorporação a Cristo e à Igreja; é aliança de compromisso e de resposta ativa ao dom de Deus; além de santificar e justificar no nome do Senhor. É bela a imagem de Tertuliano: “nós, peixinhos, que temos nosso nome de nosso peixe (ichthys) Jesus Cristo, nascemos na água e não temos outro meio de salvação a não ser permanecendo nesta água saudável”.
Jesus quer levar-nos, como fez com a Samaritana, a professar a fé nele e depois anunciar e testemunhar aos irmãos a alegria do encontro com ele e as maravilhas que o seu amor realiza na nossa existência. A fé nasce do encontro com Jesus, o Salvador. Quando o Senhor conquista o coração da Samaritana, a sua existência transforma-se e ela vai imediatamente comunicar a boa nova ao seu povo.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo