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Papa Francisco: “A fidelidade à visita de Deus para as próximas gerações”

Papa Francisco: “A fidelidade à visita de Deus para as próximas gerações”

Catequese sobre a Velhice 5. A fidelidade à visita de Deus para as próximas gerações   Prezados irmãos e irmãs, bom

Catequese sobre a Velhice 5. A fidelidade à visita de Deus para as próximas gerações

 

Prezados irmãos e irmãs, bom dia!

 

No nosso itinerário de catequeses sobre o tema da velhice, hoje olhamos para o terno quadro pintado pelo evangelista São Lucas, que mostra a cena de duas figuras de idosos, Simeão e Ana. A sua razão de vida, antes de se despedir deste mundo, é aguardar a visita de Deus. Esperavam que os visitasse Deus, ou seja, Jesus. Simeão sabe, através de uma premonição do Espírito Santo, que não morrerá antes de ter visto o Messias. Ana vai ao templo todos os dias, dedicando-se ao seu serviço. Ambos reconhecem a presença do Senhor no Menino Jesus, que enche de consolação a sua longa espera e tranquiliza a sua despedida da vida. Esta é uma cena de encontro com Jesus, e de despedida.

 

O que podemos aprender com estas duas figuras de anciãos cheios de vitalidade espiritual?

 

Entretanto, aprendemos que a fidelidade da espera aguça os sentidos. De resto, como sabemos, o Espírito Santo faz exatamente isto: ilumina os sentidos. No antigo hino Veni Creator Spiritus, com que ainda hoje invocamos o Espírito Santo, dizemos: «Accende lumen sensibus», acende uma luz para os sentidos, ilumina os nossos sentidos. O Espírito é capaz de o fazer: aguça os sentidos da alma, apesar dos limites e das feridas dos sentidos do corpo. A velhice debilita, de uma forma ou de outra, a sensibilidade do corpo: um é mais cego, outro é mais surdo… No entanto, uma velhice que se exerceu na expetativa da visita de Deus não perderá a sua passagem: aliás, estará ainda mais pronta para a colher, terá mais sensibilidade para receber o Senhor quando Ele passar. Recordemos que a atitude do cristão consiste em estar atento às visitas do Senhor, porque o Senhor entra na nossa vida com inspirações, com o convite a sermos melhores. E Santo Agostinho dizia: “Tenho medo de Deus quando Ele passa” – “Mas por que tens medo?” – “Tenho medo de não o ver e deixá-lo passar”. É o Espírito Santo que prepara os sentidos para compreender quando o Senhor nos visita, como fez com Simeão e Ana.

 

Hoje, mais do que nunca, precisamos disto: temos necessidade de uma velhice dotada de sentidos espirituais vivos e capaz de reconhecer os sinais de Deus, ou seja, o Sinal de Deus, que é Jesus. Um sinal que sempre nos põe em crise: Jesus põe-nos em crise porque é «sinal de contradição» (Lc 2, 34) – mas que nos enche de alegria. Porque a crise não nos traz necessariamente tristeza, não: estar em crise, prestando serviço ao Senhor, muitas vezes dá-nos paz e alegria. A anestesia dos sentidos espirituais – e isto é terrível – a anestesia dos sentidos espirituais, na excitação e atordoamento dos sentidos do corpo, é uma síndrome generalizada numa sociedade que cultiva a ilusão da juventude eterna, e a sua caraterística mais perigosa consiste em ser quase inconsciente. Não se tem a consciência de estar anestesiado. E isto acontece: sempre ocorreu e continua a acontecer nos nossos tempos. Os sentidos anestesiados, sem compreender o que acontece; os sentidos interiores, os sentidos do espírito para compreender a presença de Deus ou a presença do mal, anestesiados, não distinguem.

 

Quando perdemos a sensibilidade do tato ou do paladar, damo-nos imediatamente conta. A da alma, a sensibilidade da alma, ao contrário, podemos ignorá-la por muito tempo, viver sem nos darmos conta de que perdemos a sensibilidade da alma. Ela não se refere simplesmente ao pensamento de Deus ou da religião. A insensibilidade dos sentidos espirituais diz respeito à compaixão e à piedade, à vergonha e ao remorso, à fidelidade e à dedicação, à ternura e à honra, à responsabilidade própria e à dor pelo próximo. É curioso: a insensibilidade não te faz compreender a compaixão, não te faz entender a piedade, não te faz sentir vergonha ou remorso por teres feito algo mau. É assim: os sentidos espirituais anestesiados confundem tudo e, espiritualmente, já não sentimos tais coisas. E a velhice torna-se, por assim dizer, a primeira perda, a primeira vítima desta perda de sensibilidade. Numa sociedade que exerce a sensibilidade sobretudo por prazer, só pode haver a perda de atenção pelos mais frágeis e prevalecer a competição dos vencedores. É assim que se perde a sensibilidade. Certamente, a retórica da inclusão é a fórmula ritual de cada discurso politicamente correto. Mas ainda não confere uma verdadeira correção às práticas da normal convivência: uma cultura da ternura social tem dificuldade de crescer. Não: o espírito da fraternidade humana – que julguei necessário relançar com força – é como uma peça de vestiário descartada, para admirar, sim, mas… num museu. Perde-se a sensibilidade humana, perdem-se estes movimentos do espírito que nos tornam humanos.

 

É verdade, na vida real podemos observar, com comovente gratidão, muitos jovens capazes de honrar até ao fundo esta fraternidade. Mas o problema é exatamente este: existe um descarte, um descarte culpado, entre o testemunho desta linfa vital da ternura social e o conformismo que obriga a juventude a contar a sua história de modo completamente diferente. O que podemos fazer para preencher esta lacuna?

 

Da narração de Simeão e Ana, mas também de outras histórias bíblicas da velhice sensível ao Espírito, vem uma indicação oculta que merece ser trazida à tona. Em que consiste concretamente a revelação que estimula a sensibilidade de Simeão e Ana? Consiste em reconhecer numa criança, que eles não geraram e que veem pela primeira vez, o sinal certo da visita de Deus. Eles aceitam que não são protagonistas, mas apenas testemunhas. E quando um indivíduo aceita não ser protagonista, mas se compromete como testemunha, tudo bem: aquele homem, aquela mulher, amadurece bem. Mas se tiver sempre vontade de ser protagonista, nunca amadurecerá neste caminho rumo à plenitude da velhice. A visita de Deus não se encarna na sua vida, daquele que quer ser protagonista e nunca testemunha, não os põe em cena como salvadores: Deus não se encarna na sua geração, mas na geração vindoura. Perdem o seu espírito, perdem a vontade de viver com maturidade e, como se costuma dizer, vivem superficialmente. É a grande geração dos superficiais, que não se dão ao luxo de sentir as coisas com a sensibilidade do espírito. Mas porque não se dão o luxo? Em parte, por preguiça, e em parte porque já não podem: perderam-na. É mau quando uma civilização perde a sua sensibilidade de espírito. Por outro lado, é bom quando encontramos anciãos como Simeão e Ana que mantêm esta sensibilidade do espírito e são capazes de compreender situações diferentes, pois estes dois compreenderam esta situação que os precedeu, que era a manifestação do Messias. Nenhum ressentimento ou recriminação por isto, quando se encontram nesta condição estática. Ao contrário, grande emoção e grande consolação, quando os sentidos espirituais ainda estão vivos. A emoção e a consolação de poder ver e anunciar que a história da sua geração não se perde nem se desperdiça, precisamente graças a um acontecimento que se encarna e se manifesta na geração seguinte. E é isto que uma pessoa idosa sente quando os seus netos vão falar com ela: sentem-se reavivados. “Ah, a minha vida ainda é aqui”. É tão importante ir ter com os idosos, é tão importante ouvi-los. É tão importante falar com eles, porque existe esta troca de civilização, esta troca de maturidade entre jovens e idosos. E assim, a nossa civilização prossegue de uma forma madura.

 

Só a velhice espiritual pode dar este testemunho, humilde e deslumbrante, tornando-o influente e exemplar para todos. A velhice que cultivou a sensibilidade da alma extingue toda a inveja entre as gerações, todo o ressentimento, toda a recriminação pelo advento de Deus na geração seguinte, que chega com a despedida da própria. E isto é o que acontece a um idoso aberto, a um jovem aberto: despede-se da vida, mas entrega – entre aspas – a sua vida à nova geração. E esta é aquela despedida de Simeão e Ana: “Agora posso ir em paz”. A sensibilidade espiritual da velhice é capaz de interromper a competição e o conflito entre as gerações de modo credível e definitivo. Ultrapassa esta sensibilidade: os idosos, com esta sensibilidade, ultrapassam o conflito, vão além, caminham para a unidade, não para o conflito. Isto é certamente impossível aos homens, mas é possível a Deus. E hoje precisamos tanto dela, a sensibilidade do espírito, a maturidade do espírito, precisamos de anciãos sábios, maduros em espírito, que nos deem esperança para a vida!

 

Saudações:

 

Queridos fiéis de língua portuguesa e em particular o grupo do Colégio Nossa Senhora de Lourdes, do Porto, e os outros grupos de peregrinos de Portugal, sede bem-vindos! De coração saúdo a todos e confio ao bom Deus a vossa vida e a dos vossos familiares, invocando para todos as consolações e luzes do Espírito Santo, a fim de que, vencidos os pessimismos e as desilusões da vida, possais cruzar o limiar da esperança que temos em Cristo Senhor. Conto com as vossas orações. Obrigado!

 

APELO

 

Amados irmãos e irmãs, no próximo sábado e domingo irei a Malta. Naquela terra luminosa serei peregrino nas pegadas do Apóstolo Paulo, que ali foi acolhido com grande humanidade depois de ter naufragado no mar a caminho de Roma. Esta Viagem Apostólica será assim uma oportunidade para ir às fontes da proclamação do Evangelho, para conhecer pessoalmente uma comunidade cristã com uma história milenar e vivaz, para encontrar os habitantes de um país situado no centro do Mediterrâneo e no sul do continente europeu, hoje ainda mais dedicados ao acolhimento de tantos irmãos e irmãs em busca de refúgio. Desde já saúdo de coração todos os malteses: desejo-vos um bom dia. Agradeço a quantos trabalharam para preparar esta visita e peço a cada um que me acompanhe com a oração. Obrigado!

 

Resumo da catequese do Santo Padre:

 

Na nossa reflexão sobre a velhice, detemo-nos hoje com dois idosos: Simeão e Ana. A sua razão de viver, antes de deixar este mundo, é esperar a visita de Deus. Ambos reconhecem a presença do Senhor no menino Jesus, que enche de consolação a sua longa espera e de serenidade a sua despedida da vida. Na sua história, há uma indicação oculta que merece ser trazida à luz. Em que consiste a revelação que acende a sensibilidade de Simeão e Ana? Consiste em reconhecer o sinal seguro da visita de Deus numa criança que não geraram e que veem pela primeira vez. Eles aceitam não ser protagonistas, mas apenas testemunhas. A visita de Deus não se realiza na vida deles, não os coloca em cena como salvadores: Deus não toma carne na sua geração, mas na geração sucessiva. Isto, porém, não causa neles qualquer ressentimento nem lamentação; o que vemos é grande júbilo e consolação, podendo ver e anunciar que a história da sua geração não foi inútil nem é desperdiçada, precisamente graças a um evento que toma corpo e se manifesta na geração seguinte. Só uma velhice animada pelo Espírito Santo pode dar este testemunho humilde e feliz, tornando-a exemplar para todos. A velhice que cultiva a sensibilidade da alma extingue toda a inveja entre as gerações, todo o ressentimento ou lamento por uma vinda de Deus na geração que se lhe segue, que chega juntamente com a despedida da própria geração. A sensibilidade espiritual da terceira idade é capaz de quebrar a competição e o conflito entre as gerações de forma credível e definitiva. E se isto parecer impossível aos homens, não o é para Deus!

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