Após um período de recesso escolar, tanto para o ensino básico quanto ao superior, a volta as aulas marcam um novo tempo na vida das crianças e jovens. Com as aulas há uma retomada da volta ao ambiente escolar e universitário, a convivência com as outras pessoas e o caminho do conhecimento e aprendizagem.
Estar num ambiente escolar ou universitário é muito mais do que um lugar com salas para aula. Todo o contexto escolar é educativo e educador, desde a porta da entrada até a saída da escola as pessoas estão envolvidas por uma atmosfera que permite a formação integral do ser humano. São pequenos sinais que passam despercebidos, mas, se fossem refletidos com os estudantes, certamente eles teriam uma maior percepção da função da escola na sua vida. Se eles entendessem que as pessoas que estão trabalhando pela escola devem ser respeitadas, saudadas e valorizadas. Se entendessem que é importante cuidar dos pequenos e ajuda-los a descobrir o encanto pela escola. Se fossem conduzidos entender o valor da biblioteca. Nas escolas públicas, se fossem auxiliados a formação sobre a alimentação saudável e nutritiva. Se nas universidades, os jovens vislumbrassem o poder da coletividade, da troca de experiências e do desejo de cultivar os verdadeiros valores que edificam a vida.
Digo isso, pois, muito se fala da falência da escola e da decadência do sistema de ensino. Em alguns casos até a opção inadequada de encerrar a vida estudantil ao mundo virtual para que “tenham melhor proveito dos conteúdos transmitidos pelas melhores escolas que oferecem aulas online com os melhores conceitos”. Em minha percepção, este tipo de visão é bastante limitado. Claro que as escolas e universidades enfrentam problemas, desde a manutenção estrutural em um país que usa dinheiro público para tantos “penduricalhos eleitorais” e sobra tão pouco para cuidar do patrimônio sagrado de uma escola. Também existem limites quanto a adaptação das novas gerações ao espaço da formação, pois vem de um mundo que valoriza cada vez mais o indivíduo e suas necessidades. Já a escola e a universidade são espaços coletivos, o que difere totalmente da cultura que vem sendo implantada na formação das pessoas, que não é integral, mas parcial. Por isso que, estar num ambiente escolar e universitário permite que o cotidiano neste lugar forme sujeitos de maneira integral, plena, em todas as suas capacidades.
Outra marca da escola e da universidade é a convivência com os outros. Não somos sozinhos ou isolados ou bolhas. A vida humana só existe na quarta pessoa do plural e não na primeira pessoa do singular. Assim, o retorno as aulas permite que esta realidade antropológica seja vivenciada de maneira plena. As crianças convivem com os primeiros amiguinhos, e alguns o serão para a vida toda. Os maiorzinhos começam a formar o grupo da Luluzinha e do bolinha. Os adolescentes fazem as primeiras experiências de afeto e namoricos. Os adultos formam parcerias, realizam trabalhos e projetos em comum, vivem experiências de conforto e consolo nas dificuldades, estudam juntos e exploram as mais belas realizações do tempo da faculdade.
Por este motivo, pensar a escola e a universidade é projetar um espaço para a convivência integral das pessoas. Mais do que um lugar equipado para a transmissão sobre a ultima descoberta do universo, é preciso visualizar lugares para que todas as experiências humanas tenham o seu êxito e que o ser humano que “habita” na escola ou na universidade, supere todas as barreiras impostas pelo “eucentrismo” para chegar à beleza do “nós-conosco-convosco”.
E, por fim, o retorno as aulas é uma promessa de desbravar o mundo do conhecimento. Para além da concepção bancária da teoria do conhecimento, a escola e a universidade são espaços para a socialização dos diversos tipos de experiências que geram o verdadeiro conhecimento. Claro que existem conceitos que precisam ser repassados, fórmulas a serem ensinadas, códigos a serem decifrados, textos a serem lidos, artigos e teses a serem elaboradas, além das magníficas aulas repletas de slides que precisam ser efetuadas. Todavia, o bom êxito da execução de uma disciplina ou de uma matéria se dá quando tudo o que for partilhado pelos diferentes participantes do ambiente estudantil, permitir que todos os envolvidos no processo de ensino-aprendizagem tenham a possibilidade de se tornarem verdadeiramente humanos, pessoas melhores, mais simpáticos e empáticos, socializadores de projetos, construtores de um mundo mais próximo daquilo que Jesus chamou de Reino de Deus.
Logo, o conhecimento deve levar a sabedoria, que muito mais do que acumulo de informações sobre determinadas áreas do conhecimento, consente que as pessoas realizem o verdadeiro discernimento sobre o que convém e o que não edifica a realização do bem comum.
Deste modo, o tempo de retorno as aulas é uma grande esperança para todos os envolvidos. É muito bom ouvir novamente o barulho das conversas nas escolas, os gritos a hora do intervalo, a bagunça no trânsito ao redor da escola, os ônibus chegando na faculdade transportando gente de longe para mais uma jornada de estudos, a fila da merenda servindo um delicioso lanche para dar mais energia, os cafés das faculdades repletos de jovens trocando ideias, reclamando dos professores, falando mal das aulas… até isso faz parte e faz bem e deixa saudades.
Como é bom voltar as aulas! Um bom ano letivo para todos!
Pe Mateus Danieli – Coordenador de Pastoral