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03.Abr - Verdade e misericórdia
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Verdade e misericórdia


Como conjugar verdade e misericórdia ou verdade e amor?  Numa discussão teórica é possível argumentar propondo casos fictícios, porém diante de fatos e pessoas as convicções teóricas são postas a prova. Quando se absolutiza a verdade a tendência é cair na intransigência, no legalismo e na intolerância. Quando se absolutiza a misericórdia a verdade é relativizada, atrofiada e todas as ações são validadas. No santo evangelho Jesus, como divino mestre, harmoniza verdade e misericórdia (Isaías 43,16-21, Salmo 125, Filipenses 3,8-14 e João 8,1-11).


            Jesus está ensinando de madrugada no Templo rodeado pelo povo. Fariseus e mestres da Lei “para experimentar Jesus” provocam-no a ser juiz: “Mestre, esta mulher foi surpreendida em flagrante adultério. Moisés na Lei mandou apedrejar tais mulheres. Que dizes tu?” Tanto o povo quanto os fariseus e mestres da Lei reconheciam Jesus como mestre, reconheciam que tratava todos de maneira digna e justa. Agora, se oferece uma oportunidade que pode ser compreendida como “extrema” para experimentar o mestre. Sem dúvida, as atitudes de Jesus acompanhadas de poucas palavras são surpreendentes, questionadoras. Jesus toma posição e faz todos os presentes se envolverem e tomarem também posição.


            Diante daquela cena dramática a primeira atitude de Jesus foi: “inclinou-se, começou a escrever com o dedo no chão”. O texto silencia sobre o que escreveu, talvez tenha escrito os dois mandamentos que estavam em questão: “Não pecar contra a castidade”. “Não matar”. O silêncio e o ato de escrever no chão revela a serenidade de Jesus. Talvez o silêncio tenha incomodado mais os acusadores do que uma boa argumentação racional.


            Jesus forçado a romper o silêncio, questiona: “Quem dentre vós não tiver pecado, seja o primeiro a atirar-lhe uma pedra”. A testemunha de acusação começava a matar. Mas, ao atirar a primeira pedra, não estava violando o mandamento de “não matar” do Decálogo? Como entender a autorização de matar em certas ocasiões conveniadas pela vontade humana, por exemplo: aborto, pena de morte, tortura, eutanásia, fome ... Para Jesus aquela situação parecia muito simplista, sumária, falsa e injusta, isto é, num lado uma pecadora e do outro lado os puros, os guardiões da lei e da moralidade pública. Ao questionar quem não tem pecado e pela reação dos questionados de admitir serem pecadores, agora os lados desaparecem, pois todos são pecadores.


            O segundo momento fará história. Jesus abre um diálogo breve, essencial e decisivo com a “mulher”, assim ele a denomina. O diálogo é breve para não criar constrangimento e a resposta já está inclusa na pergunta. Jesus prepara para ela a salvação espiritual do perdão depois de salvar o seu corpo da morte. Jesus concede o perdão para reabilitar, fazê-la renascer e possibilitar um caminho novo que seria impossível se fosse lapidada. “Eu também não te condeno. Podes ir, e de agora em diante não peques mais”. O mandamento “não pecar contra a castidade” não é abolido, mas confirmado.


            Jesus, provoca de forma pacífica, uma profunda mudança em todas as pessoas envolvidas no caso. Leva os ouvintes sobre o terreno da consciência. Ele valoriza a verdade que está escondida nos recantos da consciência, onde somente a própria pessoa tem acesso. Os adversários e a mulher são convidados a irem lá para se encontrarem com a verdade.


            Jesus restabelece a verdade confirmando os mandamentos e os harmoniza com a misericórdia. Ninguém é sem pecado e ninguém pode garantir que não vai pecar. O pecado é o passado do homem, a graça divina é o seu futuro. Jesus demonstrou amor para com os fariseus e mestres da Lei e com a mulher. Amou os adversários avisando-os que tinham pecado e a não se iludir na suposta perfeição. Ofereceu-lhes a possibilidade de olhar-se no espelho da própria consciência, quase obrigando-os a sentirem a necessidade da misericórdia de Deus como a mulher que estavam acusando.



Fonte: Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo

Dom Rodolfo Luís Weber

Dom Rodolfo Luís Weber

O arcebispo metropolitano de Passo Fundo, dom Rodolfo Luís Weber, escreve semanalmente artigos de opinião sobre temas diversos e latentes em nossa sociedade.

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