Neste terceiro domingo do Tempo Comum, refletimos, segundo a narrativa de Mateus, o início da missão de Jesus, tendo como referência temporal a prisão de João Batista, aquele que o havia anunciado. Lembremos o que o Tempo Litúrgico Comum motiva os cristãos a beberem da fonte de água viva que é a vida e missão de Jesus, o Mestre da Justiça neste ano apresentada pelo evangelista Mateus. Desse modo, as comunidades refletem o início da missão de Jesus a partir do lugar escolhido, a proposta anunciada, a composição do discipulado e a forma de concretização dessa proposta.
Jesus, depois de batizado, já havia enfrentado as tentações, a possibilidade de assumir outro projeto, diferente do desígnio do Pai (Mt 4,1-11). Segundo Mateus (Mt 4,12-23), o Filho de Deus deixou Nazaré e foi morar em Cafarnaum, às margens do mar da Galileia, ou lago de Genesaré, que se torna sua referência geográfica para a missão, o lugar escolhido. Nazaré era o lugar da criação e infância de Jesus, o lugar da convivência familiar. Jesus retornou para lá mais tarde, quando apresentou seu projeto missionário e foi rejeitado pelos compatriotas.
Cafarnaum, pela localização estratégica, à beira do mar da Galileia foi o lugar onde Jesus começou a missão e também onde passou um bom tempo de sua vida. O povo que habitava essa região era mal visto pelas demais, devido as tantas ocupações estrangeiras e pela circulação de diferentes povos e culturas, motivo de preocupação para os que defendiam o purismo da tradição semita. Para os demais o povo dessa região era um povo sem identidade. Era um povo sofrido. Por isso a expressão de Mateus: “terra de Zabulon, terra de Nefali, caminho do mar, região do outro lado do rio Jordão, Galileia dos pagãos! Para esse povo, vítima de preconceito, pelo histórico de dominações e abandono surge um caminho, uma proposta: “o povo que vivia nas trevas viu uma grande luz, para os que viviam na região escura da morte brilhou uma luz” (Mt 4,16). Era Jesus se apresentando com a boa nova do Reino. Segundo Ivo Storniolo, “Jesus começa a sua missão por onde não esperamos: pela periferia do povo de Deus, povo roubado, sofrido desvalorizado e marginalizado por aqueles que se consideram os escolhidos de Deus. Deus ama a todos, mas em primeiro lugar aqueles que consideramos perdidos” (Storniolo 1991, p.49). É no meio deles que surgirá a luz que iluminará a todos. Jesus se colocou como luz para as pessoas daquela região e como luz se irradia para outros povos e nações.
O Filho de Deus apresenta uma proposta explicita para todos. Sugere o caminho da conversão, porque o Reino dos céus estava próximo. Todos deveriam se orientar para a “boa nova anunciada”, o Reino dos Céus. Entende-se conversão como único caminho, o caminho do Reino anunciado e que estava próximo. Devido a tantas interferências sociais, culturais e religiosas, aquele povo vivia a confusão de outros tantos caminhos. Era um povo confuso. Além da mudança de vida, um dos sentidos da conversão, há também a exigência do foco, da orientação, convergir para o Reino. Era a proposta de Jesus. Mudança de vida e convergir para o Reino anunciado são iniciativas complementares que determinam um novo patamar de vida para a pessoa. O pedido feito por João Batista agora ganha densidade com Jesus.
Jesus não assume o trabalho sozinho. Vai aos poucos compondo uma equipe de discípulos. Chama seus futuros discípulos a partir do cotidiano das suas vidas e pessoas que viviam naquela região. Os primeiros chamados são homens que viviam da atividade da pesca. Ali era o seu local de trabalho e a pesca o seu ganha pão. Para eles aquela proposta tinha sentido e valia a pena. Colocaram-se a serviço do projeto de Jesus. Foi o primeiro passo. O discipulado exige esta decisão primeira que é fundamental. Os primeiros convidados fizeram isso. O discernimento e amadurecimento surgiram com o caminhar.
Ao mesmo tempo em que ia montando a sua equipe, Jesus foi colocando em prática o projeto. São os sinais do Reino. Mateus assim descreve: “andava por toda a Galileia ensinando em suas sinagogas, pregando o Evangelho do Reino e curando todo o tipo de doença e enfermidade do povo” (Mt 4,23). No itinerário percorrido Jesus vai semeando vida, dignidade, esperança e liberdade. Ele anuncia o Reino e concretiza na sua prática os sinais desse Reino.
Neste terceiro domingo somos motivamos a acolher esta proposta. O Reino anunciado por Jesus possa provocar em cada cristão acolhida, adesão e compromisso.
Pe. Ari Antonio dos Reis