No 4º Domingo do Tempo Comum, orientados pelo Evangelho de Mateus, que nos apresenta Jesus como o Mestre da Justiça, seguimos o itinerário do Filho de Deus em plena jornada missionária. É conveniente ter presente os momentos anteriores vividos por Jesus precedentes ao narrado no texto proposto para este domingo na liturgia dominical. Ele se apresentou para ser batizado por João no rio Jordão (Mt 3,13-17); enfrentou as tentações que implicavam em assumir outro projeto diferente do designado pelo Pai (Mt 4,1-11 ); deu início a sua missão a partir da Galileia, convidando as pessoas à conversão em vista do Reino que se aproximava (Mt 4,12-17); convocou alguns pescadores para estarem com ele na missão, seus primeiros discípulo (4,18-22); ao percorrer a região ensinando, pregando o Evangelho e curando todas as enfermidades, percebeu a triste realidade do povo (Mt 4,23-25).
Neste itinerário Jesus fortaleceu a consciência do trabalho a ser feito e que já estava concretizando em vista do seu compromisso com o Reino e com a vida daquelas pessoas que acorriam a Ele esperançosas em vista do bem que fazia.
Compreendamos o texto das bem-aventuranças dentro deste contexto missionário de Jesus e também como parte de uma proposta mais ampla, o Sermão da Montanha que toma os capítulos cinco, seis e sete do Evangelho de Mateus. O Sermão da Montanha é dividido em várias perícopes, ou pequenas partes, cada uma com um ensinamento bem significativo para aqueles que acompanhavam Jesus e hoje para nós, mergulhados na proposta cristã e celebrantes do seu mistério.
Segundo o texto de Mateus, Jesus subiu a montanha assim como Moisés subia para estar com Deus e receber dele as orientações (Ex 24,12). Entretanto, a novidade aqui é Jesus e a palavra orientativa que Ele mesmo anuncia para seus ouvintes, diferente de Moisés que era mediador. Ele está sentando, assim como os Mestres sentavam para transmitir algo de significativo para seus interlocutores. Jesus tem a sua frente, como ouvintes alguns discípulos, já convidados para a missão, a multidão e outras pessoas, que foram à sua procura tentando descobrir alguma coisa sobre a sua pessoa.
Na primeira parte do Sermão da Montanha Jesus fala sobre as bem-aventuranças e faz isso como se convidasse as pessoas a fazerem esta experiência. Em algumas traduções aparece também a expressão felizes. O fio condutor da orientação de Jesus é a capacidade de colocar a vida e seu sentido em comunhão com a vontade do Pai, compreendendo como um caminho de santidade, todavia com suas exigências. Segundo o Papa Francisco: a palavra feliz ou bem-aventurado torna-se sinônimo de santo, porque expressa que a pessoa fiel a Deus e que vive a sua Palavra alcança, na doação de si mesma, a verdadeira felicidade (GeE 64).
Jesus propõe ao grupo ouvinte um caminho que não eliminava o seu protagonismo, o governo da sua vida, mas acentuava uma opção a ser feita a partir da referência do Reino por Ele mesmo apresentado. Havia outros caminhos de felicidade, propostos, certamente mais tranquilos e prazerosos. Ele mesmo os recusou quando o diabo os sugeriu (Mt 4,1-11).
O caminho das bem-aventuranças dividido em oito princípios: ser pobre em espírito; aflito por perceber o sofrimento do outro, mansos; ter fome e sede de justiça; misericordioso; puro de coração; promotor da paz; perseguido por causa da justiça; injuriado e perseguido, não é tranquilo ou fácil. Cada uma das bem-aventuranças carrega uma exigência própria e um modo próprio de vivência.
A opção pelo Reino anunciado por Jesus não tem a marca das facilidades. Os discípulos viveram estas tensões e dificuldades. No final da proclamação Jesus lembra que este foi o percurso dos profetas (Mt 5,12). Por isso, é opção que brota do coração, raiz da espiritualidade e da vivência do discipulado. O saudoso Papa Francisco lembra que as bem-aventuranças não são, absolutamente, um compromisso leve ou superficial; pelo contrário, só as podemos viver se o Espírito Santo nos permear com toda a sua força e nos libertar da fraqueza do egoísmo, da preguiça, do orgulho (GeE 65).
Contudo, é o caminho do Reino. É o caminho do Pai, que o próprio Jesus assumiu para si. É um caminho de santidade. Abraçar diariamente o caminho do Evangelho mesmo que nos acarrete problemas: isto é santidade (GeE 94). É diferente de algumas propostas de santidade sugeridas fartamente em nossos dias, muitas distantes do Evangelho e muito mais do caminho das bem-aventuranças.
Acolhamos este caminho proposto e o sigamos!
Pe. Ari Antonio dos Reis