Em nossa peregrinação quaresmal rumo à Páscoa nos defrontamos com uma realidade que está no horizonte de toda a matéria viva e que o ser humano tem consciência explicita da sua inevitabilidade, por isso o sofrimento ou as diferentes formas de mascaramento desta realidade, a morte. O Filho de Deus também passou por esta situação. Entretanto, faz dessa experiência uma oportunidade para revelar o seu poder, apontando para um horizonte além, a vida ressuscitada. Esta é a proposição do 5º Domingo da Quaresma que refletimos iluminados pelo Evangelho de João (Jo 11, 1-45).
Na metodologia de João a ressurreição de Lázaro é o último dos sete sinais da prática libertadora de Jesus que revelam a sua divindade. Os anteriores são: a transformação da água em vinho em Cana (Jo 2,1-11); Cura do filho do oficial do rei (Jo 4,46-54); cura do paralítico próximo à piscina de Betesda (Jo 5,1-18); Multiplicação dos pães e peixes (perto de Tiberíades (Jo 6,1-15); Jesus anda sobre as águas (Jo 6,16-21); . Cura do cego de nascença (Jo 9,1-41). Na condição de enviado de Deus, Jesus explicita seu poder e força que extrapolam também as forças da morte. Curiosamente, João também descreve a humanidade de Jesus expressa no carinho que tinha por aquela família (Jo 11,5). Esta família era um ponto de apoio para o Filho de Deus e levou Marta a chamá-lo diante da situação de doença do irmão, assim como nós chamamos os nossos nos momentos de dificuldades.
Ao atender ao chamado, Jesus deparou-se com a morte do amigo. Segundo o texto, já o haviam sepultado havia quatro dias. Na tradição judaica depois de quatro dias não havia muito o que fazer, visto que o corpo já inicia a decomposição (José Bortolin, 1994, p.111). Humanamente o quadro é irreversível. A morte biológica que atinge todos os seres vivos estava ali.
O texto joanino apresenta as reações dos personagens diante do fato. A irmãs de Lázaro, Marta e Maria, agem de formas diferenciadas frente à situação. Maria fica em casa junto com os demais familiares e amigos presa à dor da morte. Ela não sai, porque aquele era o horizonte dado. Conforma-se à dura realidade da morte, assim como os vizinhos que choram em desespero. Eles não conseguem olhar além do fato biológico da morte.
Marta, por sua vez vai reagir de duas maneiras. Primeiro ela não fica presa a realidade da morte do irmão ou lamentando-se. Quer ir mais a fundo. Sai do ambiente da conformidade mórbida. Em seguida interpela o Filho de Deus como se a sua presença tivesse evitado a morte do irmão: “Senhor, se estivesses aqui, meu irmão não teria morrido” (Jo, 11,21). Queria a presença física de Jesus para evitar a morte do irmão. É uma realidade que muitas vezes nos assalta. Como se a nossa presença nessa ou naquela situação evitasse o desfecho da natureza. E arremata pedindo que Jesus desse um jeito naquela situação: “mas mesmo assim, sei que o que pedires a Deus ele To concederá” (Jo 11,22). Ela queria um desfecho mágico para aquela realidade a qual Jesus sugere que lesse sob a ótica da fé.
Jesus não se submete àquela realidade, marcada pela falta de esperança. Primeiramente age com solidariedade. Sua presença no local é solidária, em vista da relação que tinha com a família, porém não sem apontar a esperança. Dialoga com Marta indicando a realidade da ressurreição presente na Sua pessoa que iria mais longe que a tradição da época. E pede o ato de fé de Marta. O texto afirma que Jesus mandou chamar Maria para fora. Ela deveria sair do ambiente que não trazia esperança. Uma vez que havia chamado as irmãs ao ato de fé vai agir em relação ao morto. Ali estaria o sinal do poder de vida.
Diz o texto que em seguida chama Lázaro para fora. Faz isso em comunhão com o Pai a quem ora clamando a sua intervenção (Jo 11,41-42). Quando viu que Lázaro saiu amarrado, pediu que o desamarrassem. Deveria estar livre das amarras da morte. A liberdade é plena, não limitada, Ele deveria estar livre para viver.
Ao ressuscitar seu amigo Lázaro Jesus deixa um sinal para as irmãs Marta e Maria: a morte não seria o desfecho final na trajetória humana. O último desfecho é a vida ressuscitada. É um sinal para os cristãos já encaminhando para a reta final da peregrinação quaresmal em direção à Festa da Páscoa quanto celebraremos a vitória definitiva da vida sobre a morte.
Pe. Ari Antonio dos Reis