A peregrinação quaresmal neste segundo Domingo da Quaresma reserva para os cristãos o encontro com Jesus no alto da montanha junto com os discípulos e acompanhados de Moisés e Elias. O relato é do Evangelista Mateus (Mt 17,1-9), todavia está também nos demais Evangelhos Sinóticos (Mc 9, 2-10 e Lc 9,28-36). No tempo quaresmal os cristãos são convidados a subir a montanha para estar com Deus e ouvir, todavia sem fugir das responsabilidades da missão. Para tanto cabe ouvir a voz do filho amado.
É um ato de fé, sob a inspiração de Abraão, conforme a primeira leitura proposta para este domingo. Ele confiou na Palavra do Criador que lhe prometera terra e descendência. A partir da fé no Criador iniciou uma grande peregrinação. Ele não tinha nada como garantia. Tinha a sua fé que o inspirou àquela peregrinação, assumindo também compromisso de ser fonte de bênção para os demais (Gn 12, 1-4a). Abraão foi capaz de escutar a Palavra e deixar-se guiar por ela. Foi um ato de entrega total que se fundava na fé.
O texto de Mateus (Mt 17 1-9) relata que Jesus subiu a montanha em um momento de dificuldades e conflitos, fruto do compromisso missionário. As dificuldades eram externas e internas. Ainda no capítulo 15, Mateus relata a saída de Jesus do território de missão para território estrangeiro. Esta saída não fora gratuita. Os conflitos estavam explícitos, tanto em relação ao grupo dos discípulos, como com o ambiente externo, especialmente com os adversários, fariseus, mestres da lei, sacerdotes e outros.
A saída geográfica de Jesus revelou um aspecto positivo. No território de Tiro e Sidônia (Mt 15,21) encontrou-se com uma mulher cananeia. Se na sua terra e com sua gente Jesus encontrou rejeição aquela mulher mostrou que se contentaria com as sobras porque ela tinha fé no Filho de Deus (Mt 15,27). E o encontro mediado pela fé resultou cura da sua filha. O fato também permitiu a Jesus compreender a amplitude da sua missão que extrapolava o universo do povo judeu. Ele entendeu que a libertação delegada pelo Pai não poderia ser privilégio de um povo, mas aberta a todos os povos e culturas. Jesus retornou para a Galileia e continuou o seu trabalho, todavia consciente de que tinha um alcance maior e não apenas direcionado ao povo judeu. Tinha também a consciência da necessidade de enfrentar os conflitos com os adversários e com os discípulos, que ainda não compreendiam o processo assumido.
No caso dos adversários o conflito se explicitava, entre outras formas, na insistência dos fariseus, mestres da lei e saduceus pedirem um sinal a Jesus, ou seja, uma prova de que era o Filho de Deus, apesar de tudo o que havia feito em benefício do povo (Mt 16, 1-11). Mas Jesus não acolhe o pedido, pois não havia como mudar aquela mentalidade. Não aceitariam nenhum sinal da sua filiação divina. Tinham o coração endurecido.
Os conflitos com os discípulos se manifestavam pelo fato deles de não compreenderem as consequências da missão e do testemunho, como Pedro mesmo explicitou ao ouvir o anúncio da paixão. Disse a Jesus: “Deus não permita tal coisa para ti Senhor! Jamais isso te acontecerá” (Mt 16,22). Neste contexto foram à montanha. Dividimos o fato narrado por Mateus em três momentos, a saber, o gesto de Jesus, o acontecido, reação dos discípulos, manifestação de Deus.
O gesto de Jesus significou colocar a missão diante do Pai na companhia daqueles que deveriam compreender a importância do compromisso e suas consequências as quais estavam tendo dificuldades em assumir. Por isso levou consigo para a montanha parte do discipulado. Ele mesmo seguidamente fazia isso. Subia à montanha ou ia para lugares desertos para estar com o Pai. Eram momentos importantes para o Mestre em vista da sua missão Dessa vez não foi só. Os discípulos também deveriam viver aquele momento em vista da missão que assumiam junto com Jesus.
Na montanha Jesus foi transfigurado. Seu rosto ficou brilhante como o sol e suas roupas brancas como a luz (Mt 17,3). Junto com ele apareceram Moisés e Elias. O fato aponta para o horizonte escatológico de Jesus. O destino final. No final a proposta do Reino vai brilhar e triunfar. Nenhuma força contrária triunfaria. E aqueles que se aproximaram do Pai e falaram com Ele no Monte Sinai, Moisés e Elias, estão junto com Jesus referenciando sua missão. Jesus dá continuidade ao projeto salvador iniciado no passado plenificando-o.
A atitude de Pedro revela a iniciativa de querer ficar ali. Por trás da aparente boa vontade está a tentativa de antecipação da glória sem a cruz e sem compromisso, um problema de nossos tempos. Ele e seus companheiros têm medo de descer para Jerusalém, continuar a missão e enfrenar os adversários. Pedro também comete o equívoco de igualar Jesus a Moisés e Elias. Jesus foi além deles, plenificou o projeto salvador.
Aconteceu também a manifestação de Deus. Ele afirmou que ali está o Filho amado. Todos deveriam escutá-lo. A escuta implica em agir segundo a palavra escutada. E a escuta atenta leva a superar o medo e ousar a caminhar como o próprio Jesus afirmou ao grupo: “levantai-vos, e não tenhais medo” (M 17,7).
A fé nos faz peregrinar neste tempo quaresmal com esperança e confiança na ação do Pai misericordioso. A palavra escutada faz esta mediação. Ela nos leva à montanha com Jesus e convida-nos a escutá-lo. Se a montanha é o lugar onde Deus se dá a conhecer (José Bortolini, p. 62) é necessário acolhermos esta manifestação com um propósito de conversão. Não tenhamos medo ou reservas de escutar esta Palavra e praticá-la.
Pe. Ari Antonio dos Reis