Neste domingo celebramos a Solenidade da Epifania do Senhor. Epifania significa a manifestação de Deus e sua vontade salvadora a todas as nações. Os magos representam a disponibilidade dos povos e nações acolher esta vontade salvadora. A liturgia da palavra proposta para este domingo está centralizada no Evangelho de Mateus (Mt 2,1-12).
O texto que ilumina esta solenidade completa aquele encontro significativo da noite de Natal, narrado por Lucas, quando os pastores representando o povo israelita, guiados pela estrela, se dirigiram à gruta para se encontrem com o recém-nascido. Foram levar o acolhimento à criança salvadora e noticiaram que o fato trazia grande alegria (Lc 2,17).
O processo de acolhida ao Menino Salvador se complementa com a peregrinação dos magos. Eles também ficaram sabendo da notícia e se colocaram a caminho. As coisas de Deus têm a capacidade de tirar o ser humano da acomodação, interferem no ordinário da vida. Aconteceu com os pastores e se repete com os magos. Colocar-se a caminho significa desacomodar-se em vista de um objetivo importante que transforma a vida da pessoa à medida em que vai se concretizando. É um peregrinar que renova o ser humano na fé e na esperança.
Como descrito, estes homens não são da nacionalidade e cultura de Jesus. Eles representam os diferentes povos e culturas, destinatários à boa-nova e que acolhem esta boa notícia. Compreende-se que a proposta salvadora de Deus extrapola os laços culturais, uma tensão sempre presente no povo de Israel. Aqueles homens souberam do nascimento de Jesus. A atitude de saírem e se colocarem a caminho, expressa a importância que davam ao fato. Reconheciam a grandeza do recém-nascido. O texto afirma que deixaram seus países no oriente, deixaram suas casas para adorá-lo (Mt 2,2). Representam todos os povos que esperam por um rei-justo, comprometido com a paz e a verdade. Seus anseios estavam sendo respondidos.
Mas a jornada dos magos do oriente, como toda a jornada humana, corre o risco dos erros, dos caminhos tortuosos. De forma equivocada foram parar em Jerusalém, no palácio de Herodes, justamente quem não deveria saber do nascimento do Menino. Ele e toda a sua corte ficaram preocupados e sentiram-se ameaçados, sobretudo porque as profecias asseguravam a concretização do fato (Mt 2,6-8). Não se alegram com a boa notícia, mas começaram a pensar em eliminar aquele que era motivo de preocupação. Herodes orientou os magos com uma mentira. Ele não queria perder o controle dos fatos. Deveriam voltar até ele e prestar contas a ele onde estava a novidade. Mas ele não queria prestar reverência. Queria eliminar o perigo.
Mas a mão de Deus, ou seja, a estrela guiava aqueles homens. Eles, quando se deixaram guiar por ela, reencontraram o caminho e com grande alegria, chegaram até Jesus. Assim como os pastores, os magos encontraram o menino com Maria, sua mãe. E tomaram algumas atitudes significativas.
Primeiro ajoelharam-se diante dele e o adoraram. Pode parecer estranho homens importantes colocarem-se de joelhos diante de um recém-nascido e ainda o adorarem, atitude só tomada diante de divindades. Mas ali estava o reconhecimento de alguém maior e que os motivara a sair de suas casas em procura. A viagem tinha valido a pena. Estavam diante de quem tanto procuravam, a quem prestavam reverência. Estavam acolhendo a interferência do Deus Menino em suas vidas. As promessas divinas tinham sido cumpridas.
Em segundo lugar abriram seus cofres, lugar de coisas importantes e valiosas; e ofereceram presentes a Jesus, ouro incenso e mirra. Vê-se a dimensão afetiva, pois dar presente é um ato de afeto e carinho e os presentes vieram em cofres devido a sua importância. Também é possível, ver nestes presentes a dimensão ligada à trajetória missionária de Jesus, a sua imersão junto à humanidade. O ouro, o incenso e a mirra, representavam a realeza, a divindade e a humanidade de Jesus, condições assumidas junto ao povo de Deus.
Por fim, Mateus escreve que os magos, avisados em sonho para não voltarem a Herodes, retornaram para sua terra por outro caminho. O encontro com Jesus ajuda a discernir e superar de forma definitiva o equívoco do encontro com Herodes. O caminho do rei Herodes não era o melhor. O encontro com Jesus lhes dera esta certeza. Eles saíram do encontro com Jesus transformados porque este valera a pena e lhes dera o sentido da jornada empreendida. Deus os chamara para aquela peregrinação com um propósito e este estava se cumprindo.
A celebração da epifania sugere para nós a universalidade do projeto salvador de Deus. Assim como a estrela guiou aqueles homens até Jesus, Ele quer nos guiar também até o seu Filho. Quer guiar para nos salvar. Precisamos humildemente deixar que este processo aconteça. Reconheçamos, como os magos do oriente, em Jesus toda a força amorosa de Deus. Não é a força perversa de Herodes, mas amorosa e sanadora dos males humanos. Possamos, como os magos, deixar-nos transformar pelo encontro com Jesus. Ele se manifesta e nos acolhemos esta manifestação amorosa.
Pe. Ari Antonio Reis