O fato da ressurreição do Senhor Jesus foi uma boa notícia para o discipulado, todavia acompanhado de muitas dúvidas e inquietações. A morte de Jesus espalhou dissenção no grupo. Ao mesmo tempo em que deixou o memorial da eucaristia (1 Cor 11,23-26) e mandato do serviço (Jo 13, 1-15), Jesus com honestidade e transparência comunica a traição e a fraqueza presentes no grupo. Judas o trairia por trinta moedas (Mt 26,14-15 ) e Pedro o negaria por três vezes. Ele não tinha dúvidas quanto à natureza humana e frágil dos seus seguidores. Ela se expressa de forma contundente na cruz onde não restaram muitos para assistir a sua agonia. O medo e a decepção tinham sido mais fortes. O evangelista João expressa a cena: junto à cruz de Jesus estavam sua mãe, a irmã de sua mãe, Maria e Cleofas, e Maria Madalena (Jo 20, 25). Estava também João, o discípulo amado. O amor que tinha pelo mestre o fez fiel até o fim. No que diz respeito aos demais, já havia acontecido a dispersão no grupo devido ao trauma da crucificação.
A cena que dá início ao Evangelho deste Domingo de Páscoa (Jo 20,1-9) acontece dias após a morte de Jesus. Maria Madalena é a imagem da comunidade marcada pelo luto e pela falta de esperança. Não tinha assimilado a morte de Jesus. Ela foi ao túmulo bem de madrugada quando ainda estava escuro (Jo 20,1). Sobre ela e a comunidade dos discípulos pairava a escuridão da morte. Eles têm dificuldades de assimilar a morte do Mestre. É uma comunidade marcada pela dor. Maria vai ao túmulo em busca de algo para aliviar esta dor. Está errante. Mas ela percebe um sinal preocupante. O corpo não estava no túmulo e a pedra havia sido removida. Maria Madalena não quer testemunhar sozinha o fato. Vai em busca de mais testemunhas para que pudessem ver o acontecido. Entretanto estavam dispersos. A morte causara dispersão. Não restaram muitos. Encontra apenas dois, Pedro e o discípulo amado. Estes correm ao túmulo em tempos diferentes. Alguns exegetas afirmam que a velocidade depende da experiência feita com Jesus. Por que o discípulo amado chegou antes? Seria a sua ânsia pela novidade maior? A resposta pode estar no amor. Este é o grande impulso na vida. Permite superar barreiras.
Segundo o texto, não aparece mais a figura de Maria Madalena. Ela havia cumprido o seu papel. Deveria, ela mesmo, fazer outra experiência de encontro com o Ressuscitado que João retrata em seguida (Jo 20, 11-18). Desta experiência ela recebe a missão de anunciar aos demais discípulos a visão do Cristo Ressuscitado. Esta missão reconhece o seu valor e coragem de mulher discípula.
No que diz respeito a Pedro e João, ambos marcados pela dura realidade da morte, até então vigente em suas memórias, era necessário dar outro passo. Este passo era um ato de fé. Consistia em acreditar na ressurreição do Senhor. Ambos, que correram em tempos diferentes, veem a mesma cena revelada por Maria Madalena. Entretanto a reação à imagem também é diferente. Pedro não conseguia ainda ver a novidade. Era ainda o homem frágil e assombrado pelo medo e pela traição. João, por sua vez, “viu e acreditou”. Prevalece novamente a lógica do amor. O amor leva a acreditar. Aquele túmulo não era o lugar da morte do Senhor, mas o ponto de partida para uma outra caminhada, com o ressuscitado. Jesus não estava mais ali, preso àqueles panos. Deveriam encontrar o Mestre em uma outra realidade, jamais da morte compreendendo o descrito nas Escrituras, ele devia ressuscitar dos mortos.
Neste domingo celebramos este fato que só pode ser acolhido na fé. Quando Jesus ressuscitou seu amigo Lázaro, estava indicando o horizonte próximo da sua vida e missão. No Domingo de Páscoa celebramos a concretização deste horizonte que o Filho de Deus propõe também para toda a humanidade, a ressurreição como patamar último da nossa existência. Assim como Maria Madalena, João e Pedro somos convidados a crer nessa boa notícia.
Pe. Ari Antonio dos Reis