A ascensão de Jesus ao céu celebra a missão cumprida do Filho amado do Pai. Ele que “comunicou tudo o que recebeu do Pai e, por isso, chama os discípulos de amigos” (Jo 15,15). Essa comunicação de Jesus é própria de sua personalidade, de sua genética, de seu DNA, é o código genético de Jesus: comunicar, revelar, tornar conhecido quem é Deus e o que Deus quer.
A constituição dogmática do Concílio Vaticano II sobre a Revelação Divina diz o seguinte: “Aprouve a Deus. na sua bondade e sabedoria, revelar-se a Si mesmo e dar a conhecer o mistério da sua vontade (cf. Ef. 1,9), segundo o qual os homens, por meio de Cristo, Verbo encarnado, têm acesso ao Pai no Espírito Santo e se tornam participantes da natureza divina (cfr. Ef. 2,18; 2 Ped. 1,4). Em virtude desta revelação, Deus invisível (cfr. Col. 1,15; 1 Tim. 1,17), na riqueza do seu amor fala aos homens como amigos (cfr. Ex. 33, 11; Jo. 15,1415) e convive com eles (cfr. Bar. 3,38), para os convidar e admitir à comunhão com Ele.” (DV 2). Esse modo de entender que Deus, por sua bondade, deseja ser conhecido atinge o seu âmago em seu filho Jesus Cristo, “que veio morar entre nós” (Jo 1,14).
Assim, entendemos que a ação evangelizadora de Jesus é tornar Deus conhecido aos homens por iniciativa do próprio Deus. Ele se “aprimeiria” ao ser humano como dizia o Papa Francisco. Deus chega primeiro para se deixar conhecer. Dar-se a conhecer é a expressão da comunicação de Deus, que “realiza-se por meio de ações e palavras intimamente relacionadas entre si, de tal maneira que as obras, realizadas por Deus na história da salvação, manifestam e confirmam a doutrina e as realidades significadas pelas palavras; e as palavras, por sua vez, declaram as obras e esclarecem o mistério nelas contido” (DV 2). É um dar-se a conhecer na pessoa, nas palavras, nos gestos, nos sinais, nos carinhos, nos abraços, na maneira de ensinar, de ser e de viver. Em toda a vida da pessoa de Jesus Ele comunica Deus.
Essa comunicação divina ganha um novo sentido quando Jesus é elevado ao céu. Ratzinger diz que a subida de Jesus ao céu “é a extremidade da existência humana que se estende infinitamente para cima e para baixo sobre si mesma. Como polo oposto à solidão radical e ao isolamento do amor recusado, essa existência traz em si a possibilidade do contato com todos os outros seres humanos no contato com o amor divino, de modo que o ser humano pode encontrar o seu lugar no interior do ser próprio de Deus” (Introdução ao Cristianismo p. 230). Portanto, a subida de Jesus ao céu permite que a humanidade tenha acesso novamente a graça plena de Deus. E quem deseja essa plenitude de vida para nós, seus filhos? O próprio Deus.
Neste sentido, a mensagem do Papa Leão para o 60º dia mundial das comunicações com o tema “preservar vozes e rostos humanos” recupera o sentido fundamental da comunicação do amor de Deus nas vozes e nos rostos das pessoas, pois Ele se fez voz e rosto em Jesus Cristo. Em tempos de comunicação virtual, de inteligência artificial e de múltiplas formas de informação, o papa Leão pede: “Rosto e voz são sagrados. Foram-nos dados por Deus, que nos criou à sua imagem e semelhança, chamando-nos à vida com a Palavra que Ele mesmo nos dirigiu. Uma Palavra que, ao longo dos séculos, ressoou na voz dos profetas e depois, na plenitude dos tempos, fez-se carne. Esta Palavra – esta comunicação que Deus faz de si mesmo – pudemos ainda escutá-la e vê-la diretamente (cf. 1 Jo 1, 1-3), porque se deixou conhecer na voz e no Rosto de Jesus, Filho de Deus.”
E mais, “o desafio, por conseguinte, não é tecnológico, mas antropológico. Preservar os rostos e as vozes significa, em última análise, preservarmo-nos a nós próprios. Aceitar com coragem, determinação e discernimento as oportunidades oferecidas pela tecnologia digital e pela inteligência artificial não é sinónimo de esconder de nós mesmos os pontos críticos, a opacidade e os riscos.”
Concluindo, comunicar o amor de Deus é uma dimensão pastoral e evangelizadora por excelência. Mais do que postar fotos das páginas das paróquias e movimentos, transmitir missas online, fazer lives doutrinadoras, pod casts ou trends, a evangelização requer que em tudo o que a Igreja realiza seja uma continuação da comunicação iniciada por Jesus Cristo. O que devemos comunicar? O amor de Deus que dá sentido a vida humana. Esta é a mensagem central da comunicação em uma atitude pastoral. A PASCOM é uma ferramenta para ajudar nestes processos, com formação técnica, utilização das plataformas digitais de modo correto, nas partilha das expressões da vida comunitária. Mas a ação evangelizadora da comunicação do amor de Deus não é função pastoral somente da PASCOM, é parte da vida de todo batizado que, com sua voz e se rosto, são expressões visíveis de um Deus que é amor.
Pe Mateus Danieli