Neste quinto domingo da quaresma o evangelista João (Jo 8,1-11) apresenta-nos um texto profundamente significativo que mostra o alcance da misericórdia divina revelada em Jesus Cristo e os riscos da miséria humana presentes em nós e expressa em nossas atitudes cotidianas. Sempre lembramos que a misericórdia e o amor de Deus são contrapontos à miséria humana e cabe deixarmos que ela venha ao encontro da nossa miséria.
A miséria está presente primeiramente na condição humana, na finitude própria do ser, na limitação do ser humano diante da grandeza do Criador. Somos fracos e limitados. A consciência disso dói. Somos uma pequena parte do universo criado e não podemos tudo diante desse universo, mesmo que de forma prepotente, pensemos poder. Esta é uma condição dada, própria da nossa natureza. Todavia, é uma miséria que se transforma em graça pela confiança que o criador deposita em nós (Gn 2,15).
Uma segunda dimensão da miséria é oriunda das nossas atitudes equivocadas (Gn 3,11). É a situação de pecado. Somos capazes de errar em relação ao projeto de Deus e ao nosso compromisso com o Reino. É uma acepção da miséria que assalta a nossa relação com o criador, com os nossos irmãos e irmãs e com o mundo criado. Precisamos nos dar conta desta condição, dar o passo que Caim não deu, sobretudo em relação ao nosso semelhante (Gn 4,8-10). O pecado estabelece este rompimento com Deus, com nossos irmãos e irmãs e com o mundo criado, como lembra a Campanha da Fraternidade deste ano. Interrompe-se a cadeia de amor que mantém o vigor da nossa fé. É preciso dar passos na superação das situações de miséria. Contamos com a misericórdia de Deus. Ela vem ao encontro da nossa miséria como nos relata o Evangelista João no capítulo 8. Este é um compromisso pessoal e intransferível.
O evangelho de João coloca-nos frente a frente como a terceira dimensão da miséria que Jesus desmascara pela atitude profética e misericordiosa. A miséria, fruto do pecado, é explicitada pelos pretensos denunciadores como bem afirma o texto joanino: “os mestres da lei e os fariseus trouxeram uma mulher que foi surpreendida em adultério” (Jo 8,3). Entretanto, eles não revelam a miséria que estava neles também revelada no ato. Buscavam um motivo para acusar Jesus, justamente pelo fato de não acreditarem nele. Para tanto vestiram o figurino de arautos da moralidade farisaica, assumindo o papel de julgadores e condenadores do semelhante, no caso aquela mulher.
A mulher a ser apedrejada estava sem ação. A violência do moralismo, e por que não dizer do machismo, a impediu de qualquer reação. Vê-se bem que, normalmente, a ânsia justiceira é incompleta, falha, pois a mulher foi julgada e condenada sozinha. Ela estava sozinha no ato pecaminoso?
A atitude de Jesus foi processual e enquanto ia acontecendo se delineava o encontro da misericórdia e da miséria. Lembremos que segundo o texto, a miséria se configurou em duas dimensões: da mulher e do grupo que condenava a mulher. A miséria da mulher já estava explicitada. Jesus apenas sugeriu, pelo silêncio, a miséria dos condenadores: “quem não tiver pecado, atire a primeira pedra (Jo 8,7). Eles viram de forma nítida a sua miséria e foram saindo, um a um, a começar pelos mais velhos.
Jesus ficou sozinho com a mulher: a misericórdia e a miséria. Quando diz a ela que ninguém a havia condenado e que devia partir, está devolvendo a ela o domínio da sua vida, o controle de seus atos, na liberdade que vem do Pai e na responsabilidade que cabe ao ser humano. A experiência da misericórdia sugere uma experiência de libertação, na responsabilidade que a fé sugere.
A misericórdia renova e redime, porque é o encontro de dois corações: o coração de Deus que vem ao encontro do coração do homem. O coração de Deus inflama-se de amor e compaixão e cura o coração humano marcado pela dor do pecado. E o coração humano antes coração de pedra fica transformado em coração de carne (Ez 36, 26), capaz de amar, não obstante o seu pecado. Este encontro permite compreender que o encontro sugere uma nova criação, outra existência, como Paulo afirma em carta aos Gálatas: e “somos verdadeiramente uma nova criação (Gal 6, 15): sou amado, logo existo; estou perdoado, por conseguinte renasço para uma vida nova; fui misericordiado e, consequentemente, feito instrumento da misericórdia.
Deus, na ação de Jesus não condena. Convida a cada pessoa, na liberdade, superar o pecado. Ele tem paciência. Precisamos desta paciência e também da humildade para pedirmos perdão. O Papa Francisco escreveu no encerramento do ano da Misericórdia: “vocês já pensaram na paciência de Deus? E a sua misericórdia. Ele não se cansa de perdoar, se soubermos voltar para Ele de coração arrependido. É grande a misericórdia de Deus. Disse ainda: a misericórdia torna o mundo menos frio. Confiando na misericórdia de Deus vamos superando esta condição de miséria.
Tenhamos a coragem de apresentar para Deus as nossas misérias e para acolher com alegria a sua misericórdia.
Fonte: Pe. Ari Antonio dos Reis - Coordenador de Pastoral