A liturgia dominical no proporciona rezar e refletir o tema da unidade (Isaías 8,23-9,3, Salmo 26, 1 Coríntios 1,10-13.17 e Mateus 4,12-13). São Paulo afronta o primeiro e principal problema existente na comunidade de Corinto. “Irmãos, eu vos exorto, pelo nome do Senhor nosso, Jesus Cristo, a que sejais todos concordes uns com os outros e não admitais divisões entre vós. Pelo contrário, sede bem unidos e concordes no pensar e no falar”. A falta de unidade, em todos os ambientes sociais, é um problema grave. Numa comunidade cristã onde a unidade é uma questão de identidade e de fé, as divisões são o problema primeiro e fundamental.
Quando se forma um agrupamento humano imediatamente vão se ativando os mecanismos de ataque e defesa. Cada um procura encontrar um lugar, se afirmar no ambiente e se defender ou se posicionar quando surge a oportunidade. É o retrato da comunidade de Corinto conflitada: “Porque cada um de vós afirma: “Eu sou de Paulo”; ou: “Eu sou de Apolo”; ou: “Eu sou de Cefas”; ou: “Eu sou de Cristo”. As divisões comunitárias têm raízes profundas, mas quase sempre se manifestam em partidos contrapostos que, sob o argumento de aparente verdade, escondem personalismos e objetivos frágeis.
Não basta apenas constatar o problema da divisão e dos conflitos, mas é necessário encontrar o ponto de unidade e de convergência. A unidade construída sobre pessoas e instituições sempre é frágil, pois nenhum ser humano é perfeito e as instituições são constituídas de pessoas e situadas historicamente. São Paulo recorda o centro da unidade: “Será que Cristo está dividido? Acaso Paulo é que foi crucificado por amor de vós? Ou é no nome de Paulo que fostes batizados?” Portanto, o centro é Jesus Cristo crucificado e ressuscitado. A salvação vem por Ele. Cristo é o centro e o sentido de toda vida cristã, por isso a Igreja não é apenas uma organização humana.
O mesmo ensinamento se encontra no Evangelho, que apresenta a centralidade de Jesus Cristo. O sentido da vida cristã está no seu seguimento. Jesus vai andando às margens do mar da Galileia, viu Simão e André, depois Tiago e João e os chama para segui-lo. Quem caminha e convida a partilhar a vida é o próprio Jesus. Ele é o protagonista, o centro de convergência. A forma e o local que chama os apóstolos não tem nada de extraordinário, nem de religiosidade misteriosa. A atitude de Jesus aponta que o agir de Deus não se resume em ações extraordinárias.
O convite de Jesus é para um relacionamento pessoal: “Segui-me”. A primeira resposta foi segui-lo. Antes de apresentar aos chamados um programa a seguir, uma lei a cumprir, Jesus quer estabelecer um relacionamento pessoal, estar com eles, partilhar as alegrias e os problemas, os sucessos e os fracassos. “A fé cristã não é antes de tudo uma doutrina ou uma prática: é relação pessoal com Jesus, o meu Senhor, que amo porque ele me amou por primeiro. O amor por ele que se exprime em ouvidos que escutam, olhos que veem, pés que seguem, mãos que tocam, faro que cheira, boca que saboreia, coração que canta, é o centro do cristianismo” (Silvano Fausti)
Depois disso, Jesus pode dar aos apóstolos a missão de “serem pescadores de homens”, como Ele, que “pesca” os irmãos de todo tipo de doença, perdição. Pescados por Jesus, tornaram-se semelhantes a Ele. O pescador pesca para se alimentar do peixe, o “pescador de homens” pesca para salvar, se coloca a serviço, se doa. Após este convite, os convidados deixaram seus projetos pessoais e abraçaram a causa do Reino de Deus. Fizeram uma escolha com alegria e disponibilidade, que lhes deu alegria por optarem em colocar Jesus Cristo no centro de sua vida e ações.
Dom Rodolfo Luís Weber – Arcebispo de Passo Fundo