Por incrível que pareça este é ainda o sonho de muitos brasileiros, mas nem sempre ao alcance. São indicativos de saúde, mas pouco acessíveis em sua plenitude para muitas pessoas. Partilho a reflexão a partir da expressão surgida no pensamento da personagem Luzia, central no livro escrito por Itamar Vieira Junior intitulado “Salvar o Fogo”.
A personagem, de vida muito sofrida no sertão baiano, está no hospital em visita a seu pai enfermo. A doença foi oportunidade de rever os irmãos, expulsos da terra pela pobreza e também rememorar o passado da família. Luzia já não enxergava direito e perdera os dentes. Tinha por hábito esconder a boca desdentada com as mãos. No hospital vivia momentos de preocupação pela saúde do pai e de expectativa pela oportunidade de rever a família.
Enquanto vivia estes momentos, ela pensava ao escutar os passos do irmão que chegava no corredor do hospital: além dos dentes precisarei de óculos, pus na nota de minha mente para o dia em que me restasse algum dinheiro.
O pensamento de Luzia explicita a realidade de muitos brasileiros. O enxergar bem e uma boa dentição são requisitos de saúde, também fundamentais para um bem viver e necessários à autoestima. Todavia, um sonho a ser realizado para muitos empobrecidos.
Em Pesquisa Nacional de Saúde, realizada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) e divulgada em 2020, destacam que 34 milhões de brasileiros adultos (acima dos 18 anos) perderam 13 ou mais dentes. Outros 14 milhões vivem sem nenhum, após perdas ao longo da vida. O Ministério da Saúde apresenta números aproximados. Segundo a Instituição, ao todo, são cerca de 30 milhões de brasileiros desdentados, sendo que oito milhões precisam de prótese dentária completa. Afirma o documento que a falta dos dentes pode causar problemas estéticos, funcionais e psicológicos, afetando a autoestima, a mastigação e a fala das pessoas.
No quesito visão a situação também é preocupante. De acordo com a Organização Mundial de Saúde (OMS), cerca de 50 milhões de brasileiros sofrem algum tipo de distúrbio da visão. Deste número, 60% dos casos são de cegueira e deficiência visual. Porém, se fossem tratadas com antecedência, poderiam ter sido evitadas.
Os dois aspectos acima abordados revelam a situação difícil quanto à saúde de boa parcela de brasileiros. Apesar do Brasil comportar um número significativo de profissionais da odontologia, tudo indica que é muito concentrado em grandes centros e também tem um alto custo. O mesmo acontece com a visão. O acesso nem sempre é processo fácil e normalmente é muito oneroso. Nem sempre o cuidado limita-se à primeira consulta. A saúde dentária e a ocular apresentam enfermidades de alta complexidade que exigem procedimentos complexos e caros, nem sempre alcançados pelo poder público.
Diante do fato lembra-se a afirmação do Papa Francisco na Mensagem do Dia Mundial do Pobre: “Se, numa família, se tem de escolher entre o alimento para se nutrir e os remédios para se curar, então deve fazer-se ouvir a voz de quem clama pelo direito a ambos os bens, em nome da dignidade da pessoa humana”.
Muitas pessoas vivem a cada dia a necessidade de fazer esta opção dolorosa: alimentar a si e à família ou cuidar da saúde. Qualquer escolha tem consequências e ambas implicam em maior e menor sanidade.
Enxergar bem, alimentar-se e sorrir são componentes de uma vida digna e direito do cidadão. Quantas Luzias espalhadas por esse país não têm esse sonho e alimentam a esperança de poder ver sem limitações e mastigar o alimento sagrado sem dificuldades.
Possam um dia chegar a esta realidade. Todavia, temos ainda um longo caminho a percorrer.