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MARIA: a mais perfeita iniciada à vida cristã

MARIA: a mais perfeita iniciada à vida cristã

              Chegamos ao mês de outubro! Mês que a Igreja no Brasil, nas mais diversas expressões populares, volta seu

 

            Chegamos ao mês de outubro! Mês que a Igreja no Brasil, nas mais diversas expressões populares, volta seu olhar à figura de Maria. Muitas tradições relacionadas à piedade mariana estão presentes no dia a dia do nosso Povo, como a oração do terço, a visita das capelinhas às famílias, a participação em Romarias. Nesse sentido, podemos dizer que Maria tem uma importante missão na vida de fé das pessoas: atraí-las para um encontro com Jesus Cristo.

            Apontando para esta missão de Maria é que podemos dizer que ela é um dos grandes paradigmas para a Iniciação à Vida Cristã. Isto pois, ao ser “iniciada” no plano divino da salvação, torna-se para nós hoje, a figura exemplar da Igreja, o modelo de fé, esperança e caridade. E como afirma o Concílio Vaticano II, ao “abraçar de todo o coração a vontade salvífica de Deus, [Maria] consagrou-se totalmente como serva do Senhor à pessoa e à obra de seu Filho” (LG 56). Sendo que o mesmo Concílio nos provoca à, constantemente, beber na própria fonte, queremos mergulhar, breve e de modo preciso, na Sagrada Escritura – “fonte da vida cristã” (DV 21) – para refletir como Maria é o modelo de “iniciada” e “seguidora”. Duas marcas indeléveis de quem realiza o processo de Iniciação à Vida Cristã.

 

1. Maria é “iniciada” pelo Anjo (Lc 1,26-38)

            Uma das convicções que temos é que todos precisamos ser iniciados à fé. Com Maria não foi diferente. Aliás, podemos dizer que ela foi a primeira pessoa a ser iniciada no processo de Iniciação à Vida Cristã ocorrido na história da salvação. O Anjo a inicia num projeto novo, que teve como base o diálogo. Durante a visita do Anjo, o texto bíblico nos apresenta um lindo e profundo diálogo. Nesse sentido, não podemos ignorar o fato de que: sem diálogo não há iniciação cristã. Quando algo nos é imposto, sem qualquer sinal de diálogo, recai sobre nós a amargura da obrigação. Do diálogo, porém, brota a alegria! “Alegra-te ó cheia de graça! O Senhor está contigo” (Lc 1,28). O motivo da alegria estava porque Deus estava com ela. Uma alegria que brota de dentro, que brota da fé no Deus da vida. Quem dialoga com o Senhor e deixa ser iniciado por Ele, sente a alegria de viver o processo de iniciação.

            Contudo, o texto bíblico nos relata que Maria “ficou perturbada” com a saudação do Anjo e “se pôs a pensar” (Lc 1,29). Todo processo de iniciação carrega consigo meios de desinstalar a pessoa iniciada. Carrega consigo questionamentos, provocações, tensões e conflitos. O processo de iniciação cristã não é diferente. Para mergulhar na vida cristã precisamos questionar, “ficar perturbados”. Quando um processo de iniciação não questiona e não desinstala, isso significa que não está sendo eficaz. É necessário mudanças e toda mudança causa perturbações e questionamentos.

            Diante da postura de Maria, o Anjo desempenha seu papel de “catequista”. Explica-lhe que, ao encontrar “graça diante de Deus”, ela “conceberá e dará a luz um filho”, o qual “chamará de Jesus” (Lc 1,31). O Anjo anuncia-lhe uma Boa Nova, um kerygma. Mesmo diante de tal anúncio, Maria deseja compreender melhor: “como isso pode acontecer?” (Lc 1,34). Desta pergunta de Maria brota a certeza de que ninguém ama aquilo que não conhece! Maria desejava conhecer mais este projeto que a iniciaria no plano salvífico. Eis a missão do catequista: ajudar a pessoa que está no processo de iniciação cristã a descobrir a beleza do Evangelho, a importância de dar razões à fé e o valor em viver o seguimento a Jesus Cristo.

            Embora o texto bíblico nos apresente um diálogo único e breve, sabe-se que Maria deve ter refletido e meditado muitas vezes em seu coração sobre esta proposta. Toda iniciação cristã demanda tempo. Não somente o tempo cronológico de dias ou anos, mas sobretudo o tempo de Deus, o tempo kairótico, o tempo em que Deus age na nossa vida e na nossa história. Por isso, depois de refletir, rezar e discernir a importância daquele anúncio, Maria, de modo totalmente livre e consciente, deu sua resposta: “Eis aqui a serva do Senhor! Faça-se em mim segundo a tua palavra” (Lc 1,38). Maria expressa, nessa resposta, a sua opção de vida, de modo que passa a viver segundo esta opção. Com isso, podemos dizer que quando realizamos o processo de iniciação cristã somos capazes, cada vez mais, de dar respostas maduras e conscientes. Respostas que estejam em consonância com o projeto de Deus, com a vontade de Deus e com o desejo de servir. Somente é capaz de servir quem tem convicções profundas!

 

2. De “iniciada” a “seguidora”

            O objetivo central da Iniciação à Vida Cristã é introduzir a pessoa iniciada no seguimento a Jesus Cristo. Para tal fim, o processo de iniciação cristã contribui para um morrer e um renascer. Depois de iniciados, não somos mais os mesmos! Com a iniciação cristã renascemos para uma vida nova, em Cristo Jesus; somos novas criaturas (Rm 5,17). Com esta vida nova, entendemos que somos iniciados para fazer parte dos seguidores de Cristo. Olhando para Maria, ela nos ensina como seguir fielmente o seu Filho.

            Dentre muitos aspectos, podemos destacar três:

a) Maria foi a fiel seguidora no cotidiano: Não deve ser um equívoco imaginar que onde se encontrava Jesus, em suas andanças pela Galileia, lá estava Maria. Mas, certamente, ela não era apenas uma entre tantas discípulas e discípulos. Sua presença gerava transformação. O texto de Jo 2,1-11, que narra o primeiro sinal de Jesus, em Caná, expressa muito bem isto. Maria, mulher e mãe, sempre atenta, percebe a falta do vinho e recorre ao Filho: “Eles não têm mais vinho” (Jo 2,3). Depois de ouvir a resposta Dele, ela se dirige aos serventes: “Fazei tudo o que ele vos disser” (Jo 2,5). Maria não só faz a vontade de Deus, mas ajuda os outros a fazer a Sua vontade. Ao acolher a Palavra, Maria agora convida a outros a se colocarem na mesma atitude: “sentar” aos pés do Senhor (Lc 10,39), “ouvir” (Mt 17,5) e “pôr em prática” sua Palavra (Jo 2,5) é a “única coisa necessária” (Lc 10,42).

b) Maria foi a fiel seguidora no caminho da cruz: Quando vivenciamos a celebração da Via Sacra, percorrendo os passos de Jesus em direção ao Calvário, encontramos na 4ª estação o encontro de Jesus com sua Mãe. Ela estava lá! Ela estava presente quando “chegou a hora” do Seu Filho. Se a Sua hora tinha chegado era porque a missão tinha sido cumprida até as últimas consequências. Podemos dizer que a hora da cruz foi o ponto alto da missão e da vida de Jesus. E Maria estava lá, no caminho e aos pés da cruz, juntamente com “Maria de Cléofas, o discípulo amado e Maria Madalena” (Jo 19,25). Mais do que palavras, nessa “hora”, Maria é presença. A Mãe contempla o grande mistério da Paixão de seu Filho. Maria realiza a experiência daquele Mistério. A iniciação cristã encontra em Maria o seu modelo de fidelidade a Jesus até o fim. Seguir Jesus significa amar até o fim. Maria nos ensina que, quando somos iniciados à vida cristã, temos razões para amar até o fim. Quando somos iniciados à vida cristã, temos condições para participar ativa e consciente do Mistério de Cristo. Associando a presença de Maria no Mistério de Cristo, podemos nos reportar à nossa forma de experienciar este Mistério. Através das celebrações litúrgicas temos a possibilidade de sentir os sinais da graça de Deus e realizar a experiência do Mistério. Por isso que a Iniciação à Vida Cristã é como um caminho mistagógico, ou seja, nos conduz para dentro do Mistério, nos coloca em relação com o mistério. A Liturgia é vida, é uma experiência de vida. Como nos diz o Papa Francisco: “sem a presença real do mistério de Cristo, não há qualquer vitalidade litúrgica. Portanto, a liturgia é vida e é viva porque está fundamentada no Cristo e ela o é para todo o povo da Igreja”. Nesse sentido, os ritos e orações tornam-se uma escola de vida cristã não pelas explicações que deles damos, mas por aquilo que são e pelo envolvimento no Mistério que realizam.

c) Maria foi a fiel seguidora na comunidade: Em At 1,12-14 vemos a presença de Maria junto a comunidade das discípulas e discípulos de Jesus. Ela entra para este grupo como uma mãe amadurecida pela iniciação e pelas experiências da vida, morte e Ressurreição do Filho. Nesse sentido, olhando para o processo de Maria, podemos compreender melhor que a Iniciação à Vida Cristã quer ser esse processo. Um processo que nos faz ouvir o Senhor, caminhar com Ele e anuncia-lo durante toda a nossa vida. Nunca podemos nos considerar como prontos! E Maria nos mostra que estando na comunidade foi fortalecendo sua missão, de ser uma presença materna e encorajadora, diante do mandato do Filho em “ser Sua testemunha” (At 1,8). A iniciação possibilita a conversão, isto é, o esforço de acolher e testemunhar a nova experiência de vida que se dá em Cristo no Espírito Santo. É a nova maneira de existir no mundo: configurado em Cristo. Ninguém permanece para sempre no estágio de “iniciante”. A iniciação tem um tempo estipulado. Depois de iniciados, passamos ao seguimento. Os iniciados passam a viver de forma radicalmente nova, transformadora, incorporada, iluminada. Agem com uma nova maneira de ser que contagia o mundo, as pessoas ao seu redor, suscitando curiosidade e desejo de mudança de vida naqueles que ainda não iniciaram.

            Diante de tudo isso, olhando para o seguimento de Maria, podemos elencar 3 pontos indispensáveis para a eficácia da iniciação cristã: acolhida da Palavra, a experiência do Mistério e vida de fé em comunidade.

            A Iniciação à Vida Cristã diz respeito à vivência e a transmissão da fé às novas gerações e, assim, se apresenta como um dos grandes desafios pastorais da atualidade. Diversas questões culturais, sociais e até mesmo eclesiológicas dificultam o processo da iniciação cristã. Mas, sabe-se que isso é a herança deixada pelos mais de 1500 anos de cristandade, nos quais se defendia a ideia que bastava nascer em uma família cristã para já “ser cristão”; tempos em que a catequese era a doutrinação, ou seja, mera transmissão de conteúdos e na administração dos Sacramentos.

            Se nesse contexto era lógico ser cristão, hoje, as mudanças apontam para a necessidade de um profundo processo de evangelização. Na verdade, nos damos conta que estamos num mundo de muitos batizados, mas poucos convertidos; muitos cristãos, mas poucos iniciados. Porém, como dizia Tertuliano: “Cristão não nasce, se torna”. Mais do que nunca, isso deve ser entendido com total certeza: não basta nascer em uma família cristã, para ser considerado cristão. A Iniciação à Vida Cristã é todo o processo pelo qual alguém é incorporado na caminhada da fé cristã. Por isso, olhando para o contexto em que vivemos, este não comporta e não tolera mais os métodos e conteúdos que eram impostos pela doutrinação. Temos muita dificuldade em experienciar o Mistério, de sentir-nos parte da comunidade e dar espaço para a Palavra de Deus no cotidiano. É urgente a emergência de um novo paradigma de transmissão da fé.

            Que Maria, a grande iniciada na vida cristã, nos ajude a lançar-nos neste caminho de sermos iniciados e assim optar, fielmente, em seguir o Seu Filho Jesus e anuncia-lo com nossas vidas. “Anunciar Cristo, significa mostrar que crer nele e segui-lo não é algo apenas verdadeiro e justo, mas também belo, capaz de cumular a vida de um novo esplendor e de uma alegria profunda, mesmo no meio das provações” (Papa Francisco).

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