A Semana Santa é a mãe e a mestra de todas as semanas do Ano Litúrgico, pois nela se celebra o mistério pascal de Nosso Senhor, sua morte e ressurreição. Nela serão lidos e refletidos ricos e vastos textos bíblicos sobre os fundamentos teológicos e litúrgicos da vida cristã. Não podemos nos deter em um aspecto, mas celebrar o todo do mistério pascal, por isso o fundamental é por “os olhos fixos em Jesus, que vai à frente da nossa fé e a leva à perfeição. Em vista da alegria que o esperava, suportou a cruz, não se importando com a infâmia, e assentou-se à direita do trono de Deus” (Hebreus 12,2).
Neste momento histórico estamos vivendo a guerra no Oriente Médio. É o conflito mais visível e com muitas consequências nefastas para todo mundo. Com os “olhos fixos em Jesus”, perguntamos que luzes nascem do rosto dele para toda humanidade, sobre esta violência da guerra e todas as outras formas de destruição da vida e da dignidade humana?
Jesus, para entrar solenemente em Jerusalém, pede emprestado uma jumenta e um jumentinho, porque “precisa deles”. A profecia dizia: “Eis que o teu rei vem a ti, manso e montado num jumento, num jumentinho, num potro de jumenta”. O trono do rei é a jumenta, um humilde animal de serviço. Ele veio para servir e dar a vida, não para apoderar-se e oprimir. A sua glória é o serviço.
As pessoas que foram acompanhando o cortejo fizeram das suas roupas e de galhos verdes o tapete real. Aclamam gritando: “Bendito o que vem em nome do Senhor! Hosana no mais alto dos céus!” Jesus é o rei prometido que vem em nome de Deus. A sua humildade e mansidão purificam-nos e purificam a imagem Deus construída pelos homens. Somos purificados da arrogância e da violência. Deus se apresenta de forma humilde e serviçal. Esta é sua imagem autêntica.
Depois traído e preso, Jesus é levado diante de Pôncio Pilatos para ser julgado. Perguntado sobre sua realeza, Jesus confirma que é rei sabendo que isso implicaria em condenação à morte. Depois cala e nem tenta destronar Pilatos. Não é arrogante e violento, mas se mantem humilde e manso. Sua liberdade é negociada com a de Barrabás, “um prisioneiro famoso”. Até a mulher de Pilatos se manifesta alertando o marido: “Não te envolvas com esse justo! Porque esta noite, em sonho, sofri muito por causa dele”.
A mulher de Pilatos quer salvar Jesus, pois é inocente. E mais, é justo. O apelo não foi ouvido, pois o mais importante era manter o jogo do poder. A justiça e a verdade não têm espaço quando os interesses são o poder, a prepotência e a manipulação das multidões. Tudo se justifica para encobrir a verdade e transformar o que é injusto em justo. Situações conflitivas somente podem ser resolvidas quando for manifesta a verdade. Enquanto houver fixação nas narrativas para convencer as multidões, serão os inocentes que serão condenados à morte.
Jesus, justo inocente, foi trocado por Barrabás, condenado justamente. “É a grande “troca” que nos salva: Jesus, Filho do Pai e irmão de todos, carrega sobre si a nossa maldição de filhos e irmãos de ninguém, entregues à violência e à morte. A troca entre Jesus e Barrabás mostra, de modo narrativo, o significado teológico da cruz de Jesus: Ele morre por nós e nós vivemos por Ele. É a verdadeira Páscoa, ensina o biblista Silvano Fausti.
Após ser condenado injustamente, Jesus ainda é humilhado, torturado e por fim pregado na cruz na qual deu “um forte grito e entregou o espírito”. Diante desta cena, o “oficial e os soldados que estavam com ele guardando Jesus […] disseram: “Ele era mesmo Filho de Deus”. O grande mistério de Deus e da salvação do homem é revelado. O oficial e os soldados que acompanharam de perto o modo como Jesus viveu aqueles momentos derradeiros puderam concluir o mistério que se escondia atrás daquele homem condenado injustamente, maltratado, humilhado e morto. Agora entendem como Jesus era Filho de Deus na sua existência terrena. Entendem agora como Deus cura a maldade e a violência dos homens, pelo amor, o perdão, a não violência e nem pela imposição da força física.
É missão da Igreja estar ao lado de Cristo crucificado e de todos os crucificados. O triunfo de Cristo não é aquele imperial, mas o humilde e sofrido da cruz. É o que liberta e salva. Jesus entra em Jerusalém não para ocupar a chefia de um exército e de um Estado, mas para oferecer-se como “rei manso e humilde”.
Na Semana Santa “sigamos os passos de nosso Salvador para que, associados pela graça à sua cruz, participemos também de sua ressurreição e de sua vida”.
Dom Rodolfo Luís Weber- Arcebispo de Passo Fundo