Iniciando um novo tempo para a fé cristã católica, todos são convidados por Deus à uma caminhada exodal. São 40 dias peregrinando pelo deserto da vida, em espírito quaresmal marcado pela oração, pelo jejum e pela caridade, a fim de responder o convite de Jesus: “Convertei-vos e Crede no Evangelho” (Mc 1,15). Podemos pensar, mas quaresma de novo? E logo é Páscoa outra vez, e dai… Lembrando das palavras de São Francisco de Sales: “Passemos esta quaresma como se fosse a última de nossas vidas e tiraremos dela um bom proveito”.
E uma das marcas deste dia em que inicia a quaresma é a cinza, sinal de humildade e fragilidade humana diante do pecado, mas também do desejo de ser transformado pela graça de Deus, que morreu na cruz para nos salvar. Por este motivo, as cinzas não são um sinal de benção como outros sacramentais que a Igreja celebra. Ela é um sinal de que nos confiamos a misericórdia do Senhor, para chegarmos de coração purificado à celebração do mistério pascal de Cristo, como diz a oração de benção sobre os fiéis, e não sobre as cinzas. Quem é abençoado é o Povo que inicia a quaresma. As cinzas são uma marca. Os abençoados são os que trilharão este caminho de conversão.
E a cinza é produto da queima do ramo que foi abençoado no ano passado, quando acolhemos Jesus Cristo, nossa maior esperança, em sua entrada na cidade de Jerusalém para viver a sua Páscoa. A cinza é diferente da poeira. A cinza é adubo. A poeira é o resto vão e inútil, que não serve para mais nada. A cinza é um poderoso adubo. A poeira é um incomodo, que precisamos retirar sempre de nossa casa quando fazemos limpeza, varrer fora, enfim, é pó. A cinza se torna adubo e auxilia a terra. Por isso ela é humilde, já que a palavra humildade vem de adubo.
Podemos aproximar esta reflexão da cinza e da poeira a nossa realidade humana. Existem pessoas que são cinzas, que são um adubo fértil, que produzem uma vida fecunda, harmonizam tudo ao seu redor, são úteis para tudo, pois são humildes. São aquelas pessoas que edificam suas vidas com os conselhos de Jesus no Evangelho: na oração, no jejum e na caridade. A oração como um verdadeiro encontro com Deus, no silêncio da intimidade, sem alarme, sem precisar mostrar que está rezando ou acordando cedo para rezar sei lá com quem… É intimidade que humaniza. O jejum que quebra o orgulho e a vaidade diante dos pecados capitais que nos perseguem. Jejuar é entregar-se nas mãos de Deus, com confiança, permitindo que a simplicidade modele o ser e o agir. E a caridade que realiza o maravilhoso encontro com o outro, com a necessidade do outro, com a pobreza do outro, a dor, a lágrima, a tristeza, o problema do outro. A verdadeira caridade existe quando o eu deixa de ser o centro para dar lugar ao outro.
Vivendo assim, o cristão se torna verdadeiramente cinza! Um adubo fértil e necessário. Mesmo que queimado, triturado, peneirado por tudo o que acontece na vida, pessoas cinzas sempre farão o bem por onde passarem.
Já as pessoas poeira não tem muito o que dizer sobre elas. São poeira mesmo. Servem só para incomodar, sujar, deixar o ambiente e o mundo ao seu redor irritado. São as pessoas que não rezam verdadeiramente, seu jejum só alimenta ainda mais suas vaidades e a caridade que realizam é interesseira. São aqueles que não se preocupam com o problema dos irmãos sem moradia, como vamos refletir na campanha da Fraternidade. Pessoas poeira fazem distinção por endereço: quem mora aqui é melhor do que quem mora lá. Ou pensam que as pessoas moram em tais lugares porque querem e não se esforçam para ser diferente. São aquelas pessoas que não se preocupam com a especulação imobiliária que tem aumentado abusivamente o aluguel, impedindo pessoas de terem acesso a um terreno, a construir uma casa descente para abrigar sua família. Pessoas poeira não sabem que no Brasil 6 milhões de famílias dependem de moradias de aluguel acima da possibilidade salarial, que 26 milhões de famílias moram em áreas de risco, ocupadas pelo tráfico e pelo crime organizado. E 300 mil pessoas vivem em situação de rua conforme os dados do texto base da CF.
A quaresma que vamos viver será um tempo para refletirmos sobre tudo isso. E como disse no início: devemos vive-la como se fosse a última de nossas vidas. Devemos pensar seriamente se somos pessoas cinzas ou se somos pessoas poeira. Quem se encontrar em atual estado de poeira poderá mudar. A conversão poderá torna-la cinza. E quem acha que é cinza, poderá melhorar ainda mais sua qualidade para ser mais fértil e adubar ainda mais o mundo que tanto precisa.
Pe Mateus Danieli – Coordenador de Pastoral