A celebração do Batismo de Jesus encerra o Tempo Litúrgico do Natal, marcado pela decisão do Senhor encarnar no Menino em vista da salvação da humanidade. Esta, na figura dos pastores (Lc 2,15-17) e dos magos do oriente (Mt 2,11-12) que tomam a estrada e vão até o Menino Jesus, manifesta a alegria pelo nascimento. No presépio está a comunhão da vontade salvadora divina e a acolhida da humanidade. Compreendamos que o presépio se completa com a presença de cada ser humano contemplando o Menino Jesus e manifestando a vontade de acolher a salvação. Ele veio ao mundo para salvar a humanidade e conduzi-la no caminho da luz superando as trevas. Acolhamos este caminho de luz proposto pelo Pai.
O texto de Mateus (Mt 3,13-17) para a celebração deste domingo sugere um salto no tempo e apresenta Jesus já adulto procurando João Batista para ser batizado. Ele saiu da Galileia, onde passara sua infância, e foi até o rio Jordão, onde João estava atuando, em vista de obter o batismo. Quando João anunciava a vinda de Jesus e as pessoas o procuravam com reta intenção de mudança de vida, ele as batizava. Este relato está nos textos de Mateus, Marcos e Lucas. O evangelista João apresenta outra configuração. Aqueles que revelavam falsidade de atitude João os rechaçava e denunciava sua hipocrisia. Deveriam mostrar concretamente a conversão, o propósito de mudança de vida (Mt 3,7-8).
O uso da água como parte do rito de purificação remete à ação do profeta Ezequiel indicando que a água lava a pessoa de todas as impurezas, renovando-a para um novo caminhar. Dizia o profeta: “derramarei sobre vocês uma água pura e ficareis purificados. Purificarei vocês de todas as imundícies e de todos os seus ídolos” (Ez 36,25). Possivelmente João Batista parte dessa tradição antiga do seu povo e age preparando as pessoas para o novo tempo.
Jesus, ao se aproximar de João estabelece uma ponte entre o que profeta defendia e a missão que estava prestes a iniciar, mesmo com a resistência do operador do batismo expressa nas palavras: “eu preciso ser batizado por ti e tu vens a mim? ” (Mt 3,12). João não é hipócrita. Age com humildade e estranha a atitude de Jesus. Jesus deveria batizá-lo e não ser batizado.
O ato de Jesus buscando o batismo se explica. Ele, para salvar a humanidade, não hesita fazer-se humano entre os humanos a partir da sua condição divina (Fil 2,5-11). Coloca-se junto com os filhos e filhas de Deus realizando em sua pessoa o gesto feito por Deus narrado no livro do Êxodo: desce para caminhar com a humanidade (Ex 3,7) nas condições dadas em vista da sua libertação. Por isso, se aproxima de João em comunhão com aqueles que também buscam o batismo. Ali estão se fundindo, em Jesus, o divino e o humano. Nesta condição pede o batismo de João, apesar da estranheza do profeta.
Mesmo diante da inquietação de João Batista, Jesus respondeu que deveria deixar como está, pois, antes deveria cumprir com toda a justiça. A resposta não é apenas expressão de eloquência de Jesus. Sua atitude e resposta à inquietação de João manifestam, sua comunhão com a prática profética do precursor, fundada na justiça de Deus. Esta deveria ser continuada, ou seja, cumprida plenamente: “é preciso cumprir com toda a justiça” (Mt 3,13). Jesus não rompe com a prática profética do Batista, fundada no desejo da justiça divina, mas dá continuidade e a plenifica.
Por fim, o ato do Batismo de Jesus expressa uma novidade até então desconhecida. À agua é acrescida a manifestação do Espírito Santo e do Pai. O Espírito se manifesta na forma visível de uma pomba logo que Jesus emerge da água. E o Pai se manifesta afirmando que “ali está o seu Filho amado, no qual coloca seu agrado” (Mt 3,17). Está afirmando que Jesus se apresenta para realizar a sua vontade. Se complementa o processo iniciado na encarnação. O verbo encarnado (Jo 1,14) inicia, com o Batismo de João, a vida pública sob a confirmação do Espírito Santo a anuência do Pai. É um fundamento que soma ao rito de purificação herdado da tradição antiga. Jesus emergiu da água e recebeu a força do Espírito em forma de pomba e a revelação do Pai que estava realizando a sua vontade. É o divino se fazendo presente em Jesus.
Somos batizados. Fomos mergulhados na água e configurados a Jesus. A partir do Rito do Batismo nos tornamos membros do povo de Deus. Se o nascimento foi o chamado para a vida, o batizado foi o chamado feito na fé a sermos membros desse povo. É graça e compromisso. Ao celebramos o Batismo de Jesus lembremos desta graça e compromisso que recebemos na pia batismal. Possamos viver a cada dia a condição de batizados.
Pe. Ari Antonio dos Reis