A Diocese de Santo Ângelo acolheu, na terça-feira de Carnaval, 17 de fevereiro de 2026, a 48ª Romaria da Terra do Rio Grande do Sul, no Santuário Diocesano do Caaró, em Caibaté (RS). O encontro reuniu cerca de 5 mil romeiras e romeiros de diversas dioceses gaúchas, em um profundo momento de fé, memória histórica e compromisso social.
Com o tema “400 anos de Evangelização Missioneira: Terra Sem Males e Ecologia Integral” e o lema bíblico “Eu vi um novo Céu e uma nova Terra” (Ap 21,1), a Romaria celebrou os 400 anos do início da presença missioneira no território gaúcho, recordando a chegada dos primeiros missionários jesuítas em 3 de maio de 1626. Também marcou os 270 anos da morte de Sepé Tiaraju, líder indígena guarani e símbolo da resistência dos povos originários.
O local da celebração, o Caaró, é considerado terra sagrada, pois foi uma das primeiras reduções jesuíticas e cenário do martírio de missionários, tornando-se espaço de memória, espiritualidade e compromisso com a vida dos povos e da criação.
Espiritualidade missioneira e compromisso histórico
Marcada pela espiritualidade guarani e missioneira, a Romaria reafirmou o compromisso histórico da Igreja e dos movimentos sociais com a defesa dos povos originários, da Mãe Terra e da democracia. A carta oficial da Romaria denunciou as injustiças que atravessam séculos e continuam atingindo povos indígenas, quilombolas e comunidades camponesas.
No chão sagrado do Caaró, ecoou novamente o brado de Sepé Tiaraju: “Alto lá! Esta terra tem dono!”, apresentado como símbolo de resistência frente à concentração de terras, à exploração e à ganância que ameaçam vidas e territórios.
O texto da carta reconhece formalmente as violências cometidas ao longo da história contra os povos originários e afirma que não haverá paz sem verdade, memória e reparação. A Romaria é descrita como peregrinação espiritual e política, unindo fé cristã e compromisso com a justiça social, a reforma agrária, a demarcação de territórios indígenas e quilombolas e o fortalecimento da agricultura camponesa.
Ecologia Integral e defesa da vida
A carta também denuncia os chamados “empreendimentos de morte”, como o agronegócio predatório, monocultivos envenenados, fábricas de celulose e projetos de mineração, acusados de devastar territórios, águas e modos de vida tradicionais. Em contraposição, os romeiros e romeiras reafirmaram a defesa da Ecologia Integral, da agroecologia, do reflorestamento com espécies nativas e da proteção das águas, em sintonia com o ensinamento da Igreja na encíclica Laudato Si’.
Memória e esperança
A Romaria também foi marcada pela memória de Frei Sérgio Antônio Görgen, falecido em 9 de fevereiro de 2026. Lembrado como “romeiro dos romeiros”, sua vida foi exaltada como semente fecunda nas lutas populares, na defesa da terra e na construção da justiça social.
Em um contexto de polarização e avanço de discursos de ódio, a carta reafirmou que o Evangelho convoca à resistência, ao amor e à defesa da vida, denunciando o uso do nome de Deus para legitimar violência, discriminação ou intolerância, especialmente em um ano de disputa eleitoral.
Peregrinos da esperança
Integrando o Jubileu Diocesano dos 400 anos da Evangelização Missioneira, a 48ª Romaria da Terra foi sinal de fé viva, memória histórica e esperança profética. No Caaró, romeiras e romeiros reafirmaram que a Terra é dom de Deus, casa comum de todos os povos, e que a missão cristã continua sendo cuidar da vida, defender os pobres e proteger a criação.
Leia a carta na íntegra:



Confira algumas fotos:



